Campo Mourão,
 
 
Central Regional de Notícias
17/5/2013

Portugal, nossas raízes estão aqui!

Estou renovando a coluna, meus caros amigos e amigas leitores, aqui de Portugal.

Estarei até o final do mês por aqui. Escrevo de Portugal, grande Lisboa, Bucelas que á uma freguesia do Concelho de Loures, com "c" mesmo, como se escreve por aqui.

Faz parte da região metropolina de Lisboa, 17 km do centro, onde reside minha cunhada que casou com um português chamado "Carlos Manuel", nome diferente, não acham? Até parece que o nome não é português, kkkk....

O lugar é antigo, simples e trdicionalíssimo da cultura portuguesa. Tem inclusive uma fábrica de barrís de vinho bem no centro, pois aqui ainda se produz o bom vinho de Portugal.

Há uma igreja católica (claro, bem no alto do morro que marca o centro da aldeia-freguesia).

O Altar tem vários detalhes em ouro; belíssimo.

Advinhem de onde veio esse ouro? A data de inauguração da igreja marca o ano de 1766.

Bem na frente da igreja tem uma pracinha com bancos de ferro e madeira que de tão envelhecidos são lustrados pelas nádegas dos velhinhos aposentados que conversam sobre futebol, todos muito "brabos" com a derrota do Benfica para Chelsea na final da liga européia, tal qual a decepção dos palmeirenses, sampaulinos e corintianos com a eliminação da libertadores.

O ar por aqui, mesmo na primavera européia, é frio e lembra muito os ares invernais da nossa região, pois aqui em Portugal e nesta zona, como eles dizem, nunca deixa de ventar, e como venta; tanto, que estão sendo implantados vários "cataventos" para aproveitamento da energia eólica, pois em Portugal a energia via usinas hidrelétricas é muito difícil, quase impossível pela topografia.

Uma das coisas que mais me chama a atenção nestas plagas, é a absoluta tranquilidade das pessoas.

Aqui todos, e a maioria já passou dos 50, são tranquilos. A pressa é só para os "de fora". Os "daqui", como disse um maduro português de boné, chinelo de couro e casaco de lã feito à mão pela sua esposa, "não precisam correr, pois o tempo e o lugar sempre esperam nossa chegada".

Realmente é diferente e parece que estou numa época há pelos menos duzentos anos atrás.

Tudo aqui lembra passado. A única coisa sempre nova aqui são os "autos", muitos inacessíveis para nós aí no Brasil - mercedes, BMWs, volvos, smarts, dentre outras marcas e modelos sofiscadíssimos.

As placas em Portugal tem duas letras, dois números, mais dua letras, ex: AD 35 MJ. No canto esquerdo o símbolo da comunidade européia do euro com a letra "P", designando Portugal. Na França é "F", na Espanha é "E", assim por diante.

Bom agora vou descansar para tomar uma taça de vinho e assistir logo mais uma noite de fado no "Clube do Fado", na cidade-baixa, na Alfama, bairro fadista de Lisboa.

Até, e não esqueçam: nossas raízes coloniais estão aqui nestas terras longínquas e nostálgicas de Portugal.

Vale a pena conhecer e curtir com o senso crítico de brasileiro fanático pela nossa praticidade e jeito fácil de resolver as coisas da nossa maneira, "o jeitinho brasileiro" que só nós sabemos como é bom!...

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DE GOVERNADOR PARA GOVERNADOR



Continuando com as belas histórias, ou estórias, como queiram, políticas do prefeito de Peabiru e de Roncador Eleutério Galdino de Andrade, vai mais esta que merece registro desta coluna e para que não se olvide o registro histórico desta região da COMCAM.


Certa feita, nos anos 1960 quando Eleutério Galdino de Andrade era prefeito de Peabiru, momento de campanha política para eleger deputados estaduais e federais, eis que em certo dia chega uma ligação do Palácio Iguaçu, do gabinete do governador para o prefeito Eleutério.


Telefone na mão, o prefeito atende o governador.


- Alô prefeito Eleutério, aqui é o governador Ney Braga, bom dia, como vão as coisas por aí.


- Bo...bom dia, go...governador, tudo be...bem ( já contei que o prefeito Eleutério gaguejava um pouco, principalmente quando ficava nervoso).


- Prefeito Eleutério, eu quero que você apoie o Zacarias Seleme para deputado Federal aí em Peabiru.


- Governador, a...aqui em Peabiru nós vamos apoiar o...outra candidatura, não a do Zacarias.


- Mas Prefeito, aqui é o Governador do Paraná Ney Braga falando, quero o apoio para o Zacarias.


- Go...goverandor, o senhor é o governador do Pa...Paraná, mas eu sou o governador de Peabiru, não sou?


- Claro Eleutério, o prefeito, por assim dizer, é governador da cidade, claro.


- Então go...governador Ney Braga, de governador para governador, eu não vo...vou com o Zacarias, já lhe disse.


- O Deputado Zacarias Seleme foi eleito, muito bem eleito na época, mas não teve o apoio do prefeito Eleutério.


O governador Ney Braga, grande líder político daqueles anos, depois chegou ao Ministério da Educação nos tempos dos militares, teve que engolir seco e respeitar o "Governador de Peabiru".


Bons tempos, bons tempos aqueles....Os políticos tinham coragem e palavra.

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ESSE FILME EU JÁ VÍ - CINE VERA

Nos anos 1950/1960 os cinemas eram o entretenimento mais sofisticado que havia para a população.

Proliferavam cinemas na região. Campo Mourão chegou a ter três cinemas - O Cine Mourão, Cine Império e Cine Plaza, este majestoso com quase 2 mil lugares, onde hoje funciona a Igreja Universal. Teve até cinema no bairro Lar Paraná.

Na região havia cinemas em várias cidades, destacando-se, pela grandeza e acabamento de "grandes cidades" o Cine Vera de Peabiru.

Era tão bom e sofisticado esse cinema, que muitos mourãoenses faziam programas semanais indo ver filmes no Cine Vera de Peabiru.


O proprietário era o pai do Darlan Simão, do Lava-Jato que coincidentemente funciona em frente ao antigo Cine Plaza.

Naqueles tempos o prefeito de Peabiru era o folclórico Eleutério Galdino de Andrade, que foi homenageado por este escriba noutros causos desta coluna, como o da "Cor da Bandeira", lembram-se?...

Pois foi numa das sessões do Cine Vera que houve essa nova passagem do prefeito Eleutério.

Como todos sabem, antes de iniciar algum filme da "Metro/MGM - Metro-Goldwyn-Mayer" aparece o seu famoso leão rugindo.

Certa noite chegou ao Cine Vera o prefeito Eleutério acompanhado de seu inseparável amigo "Gordo" (diziam que o "Gordo" era uma espécie de segurança/jagunço do prefeito Eleutério, diziam...).

Sentaram nas cadeias de fundo no cinema.


Apresentados os anúncios iniciais que sempre eram mostrados como notícias, anúncios dos filmes da semana, canal 100, dentre outras apresentações, eis que é anunciada a projeção do filme da noite. Era um filme da "Metro".,

Quando aparece o leão da "Metro" rugindo, o prefeito Eleutério bate no braço de seu amigo "Gordo" e diz:

"Vamos embora "Gordo", esse filme do leão eu já vi."

Diz o Darlan que é verdade, mas eu duvido....


A "japistória" de Goioerê

A cidade de Goioerê foi por muitas gestões governada ora por nordestinos, ora por descendentes de japoneses, pois o predomínio étnico de Goioerê é destas duas vertentes raciais.

Um dos mais tradicionais líderes dos japoneses de Goioerê foi o Prefeito Vicente Okamoto.

Ele tinha e fazia questão de manter viva durante suas gestões, uma iniciativa de trazer a colônia japonesa, especialmente de São Paulo, para conhecer a cidade administrada por um patrício e também mostrar as suas empresas.

Fretava ônibus do Expresso Nordeste e a Joponesada vinha para Goioerê.

Formava-se uma longa fila de descendentes, em torno de 70, 80 pessoas, para receber os convidados.

Na medida que iam saindo do ônibus, cumprimentavam um a um, todos os que ali se alinhavam, e claro, uma especial dobrada de espinha para o prefeito Okamoto que fazia questão de se postar em lugar estratégico para receber as honras de seus convidados.

Resultado final: era tanto dobra e desdobra de espinha, feito dobradiça mesmo, que não era raro um visitante chegar ao final da fila e caminhar com dificuldade, apoiando as costas com as mãos.

Dos que ficavam cumprimentando parado, nada se percebia, pois disfarçavam ou se preparavam com antecedência, pois o cumprimento japonês é de longe, só com o corpo, fato aliás muito higiênico, pois sendo o Japão uma dos países e cultura mais antigos da humanidade, chegaram a esta forma de cumprimento para evitar a disseminação de doenças que se transmitem exatamente pelo contato das mãos ou contatos físicos.

Por essa razão e pela sapiência milenar dos orientais, o cumprimento é de longe, sem contatos físicos e intimidades desnecessárias, só curvando o corpo.

Essa história quem me contou foi o escritor Oswaldoir Capeloto, que se deliciava vendo os japoneses sentirem dor nas costas de tanto se curvar para manter as tradições e apreciar os "grandes feitos" do prefeito Okamoto, nas visitas a Goioerê.


Dos últimos, nem no céu.

No começo dos anos 1970, quando iniciei meu curso superior em Direito ainda na Faculdade de Direito de Maringá, eis que a consolidação final da Universidade Estadual de Maringá só se deu em 1974, quando o campus onde hoje está a UEM começou a ser implantado.


A Faculdade de Direito foi uma das primeiras a se instalar no novo campus. Nossa turma foi pioneira naquele momento histórico.


Paralelamente ao curso de Direito que eu fazia indo e vindo todas as noites de Maringá, comecei minha prática profissional trabalhando com o saudoso Dr. Francisco Irineu Brzezinski (que nos deixou faz pouco tempo, em fev/2013).


O Escritório funcionava na "esquina do barulho" como era conhecida a confluência da Av. Capitão Índio Bandeira com a Rua Brasil, tendo na parte térrea do prédio, a "Casa dos Retalhos" berço profissional do até hoje insuperável locutor sertanejo "Coronel Bastião", pois seu cunhado Reinaldo Bortotti era o gerente geral da famosa casa comercial que fez história na cidade naqueles anos pioneiros.


A Casa dos Retalhos foi um marco no comércio de tecidos e roupas na região. Os mais antigos vão lembrar-se disso, com certeza.


Mas, como eu trabalhava no escritório que funcionava no primeiro andar da "esquina do barulho", com o Dr. Brzezinski, era um manancial de conhecimentos gerais dos fatos da cidade. Tudo que acontecia em Campo Mourão passava pela "esquina do barulho", "Farmácia América" ,"Bar Caiçara" e "Lanchonete do Chumbo" estabelecimentos vizinhos e do centro de Campo Mourão.


Um dos frequentadores assíduos do Escritório do Dr. Irineu Brzezinski era o Dr. Nelson Bittencourt Prado.


Dr. Nelson Prado era homem culto, vivido e experiente da vida, pois fora um dos primeiros advogados da cidade e da região.


Dr. Nelson gostava muito deste escriba. Sempre que chegava no escritório vinha logo conversar comigo indagando conhecimentos jurídicos com intuito de consolidar meus estudos no direito.


Fazia uma indagação; via minha solução e orientava corretamente aquela hipótese. Aprendi muito conversando como o mestre Nelson B. Prado - irmão da professora Leoni Prado Andrade que dirigiu nosso "Colégio Marechal Rondon" por muitos anos, sendo uma das maiores autoridades educacionais que esta terra já teve.


E foi numa dessas muitas conversas com o Dr. Nelson que aprendi está lição.


Disse-me ele certa feita - "Sartorinho (era assim que ele me chamava), esse negócio de que os últimos serão os primeiros é balela. Não acredite nisso. Se você estiver na fila para entrar no céu e estiver em último lugar, distraia o penúltimo e passe para o lugar dele, pois dos últimos, nem no céu. Último é sempre último".


Esse era o grande Dr. Nelson Bittencourt Prado, autor do nosso brasão municipal, do nosso primeiro jornal e tantas outras iniciativas que ajudaram a consolidar nossa cidade e nosso município.


Que saudade do Dr. Nelson Prado....

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A UNESCAM não foi criada por causa de um pedaço de linguiça.

Em 1997 assumimos a direção da FECILCAM, profa. Sinclair Pozza Casemiro - Diretora; Rubens Luiz Sartori-Vice-Diretor.


Liderados pela Profa. Sinclair começou a fervilhar o desejo real/sonho da transformação da faculdade em Universidade.


Para isso, além da implantação de três novos cursos - Engenharia de Produção Agroindustrial, Matemática e Turismo e Meio-Ambiente, abrimos as portas para a qualificação dos professores da FECILCAM, em mestrados e doutorados, exatamente para o preparo da universidade, pois não se chega a ela sem um quadro de professores qualificados para tal.


Era um tempo de lutas e conscientização da cidade e da região, com muitos cursos de pós-graduação que o nosso IMEPE realizava todos os finais de semana.


A idéia tomou corpo e alma, com apoio, primeiro do prefeito Rubens Bueno, depois, com a nova eleição, do prefeito Tauillo Tezelli.


Após muitas etapas, chegamos ao projeto real e palpável da UNESCAM - UNIVERSIDADE ESTADUAL DA REGIÃO DA COMCAM.


Para isso, no dia 3 de agosto de 1999, com todos os documentos necessários estivemos ( prefeito Tauillo, Profa. Sinclair e prof. Rubens ) no gabinete do Presidente da Assembléia Legislativa Deputado Aníbal Khury, então homem forte da AL e no governo.


No hora, lembro-me muito bem, chamou seu chefe de gabinete, Sotto Maior, irmão do Procurador-Geral de Justiça Dr. Olímpio Sotto Maior, e com ele, na sala anexa à presidência da AL elaboramos o projeto de criação da UNESCAM que o Dep. Aníbal Khury assinou na hora e nos garantiu que ele seria concretizado, pois dentro de alguns meses ele assumiria o governo interinamente e assinaria a criação da UNESCAM como governador do Estado.


Isso é fato e está registrado no jornais da época, especialmente em matéria de primeira página da "Tribuna do Interior".


Porém, passados apenas vinte sete (27) dias, no dia 30 de agosto de 1999, o Deputado Aníbal Khury veio a falecer vitimado por uma infecção intestinal provocada pela ingestão de um pedaço de linguiça que estaria deteriorada/contaminada.


Ele era apreciador e gostava muito de comer linguiça que seus amigos sempre levavam como presente, especialmente se feita na sua terra, União da Vitória.


Pois foi exatamente esse maldito pedaço de linguiça que impediu que a nossa UNESCAM fosse concretizada, pois todos se lembram do poderio político que o deputado Aníbal Khury detinha no seio da política paranaense.


Logo depois, assume Hermas Brandão, no lugar de Aníbal, e começou a novela da UNESPAR, com sede em Jacarezinho e que agora veio desaguar na nova UNESPAR que terá reitoria em Paranavaí, como quer o governo Beto Richa.


Portanto, nossa universidade não saiu por causa de um pedaço de linguiça que matou o presidente da Assembléia Legislativa do Paraná.

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Dr. Milton Luiz Pereira, as facetas de um grande juiz.

Hoje vou me valer deste ótimo artigo em homenagem ao Dr. Milton Luiz Pereira que fez e agora faz parte da história de Campo Mourão, do Paraná e do Brasil. Vale a leitura


Milton Luiz Pereira e as facetas de um grande juiz

Por Vladimir Passos de Freitas

Os juízes são seres humanos, com todas suas virtudes e defeitos. Mas deles se espera e se exige mais, muito mais. O que se admite em outras carreiras jurídicas, não se permite aos magistrados.

Os anos de profissão vão moldando as pessoas. Opiniões moderadas, hábito de dar a última palavra — mesmo que seja sobre a compra do carro do cunhado — e a inconsciente tendência de ouvir o outro interessado, aplicando o devido processo legal até na disputa dos filhos pelo leite condensado.

Mas, ainda que o tempo torne todos meio semelhantes, inclusive nos currículos, criando um pensamento quase uniforme sobre o Direito e a vida, alguns acabam saindo do padrão. Para o bem e para o mal.

Conheci centenas de magistrados ao longo de minha vida. Não só federais. Dez anos de MP estadual deram-me visão razoável dessa Justiça. Muitos anos de política associativa introduziram-me na Justiça do Trabalho e na Militar. Cursos, visitas, palestras ao redor do mundo deram-me a noção de que os juízes pensam de forma semelhante, em locais tão diferentes como Quênia, Honduras e Austrália.

Entre os magistrados que conheci, muitos me impressionaram. Falarei de um deles, movido pelo fato de ter participado, dia 22 passado, da cerimônia de colocação de seu nome em um Fórum da Justiça Federal em Curitiba. Refiro-me a Milton Luiz Pereira.

Conheci-o no ano de 1981, quando assumi a 2ª Vara Federal de Curitiba. Éramos apenas seis juízes federais para todo o estado. Mas ele era, visivelmente, o líder, o condutor. Sua figura rigorosa, a par da gentileza no trato, impressionou-me. E o tempo me fez compreender aquele homem singular.

Assistindo a aposição de seu nome no edifício que ele instalou em 1983, vieram-me à mente, como naqueles filmes em que sucessivas estações do ano revelam a inexorável passagem do tempo, as inúmeras passagens da vida de Milton Luiz Pereira. Muitas eu presenciei. Outras, me contaram. Vale a pena mencionar algumas. Pequenas coisas, que distinguem os que fizeram a diferença daqueles que, burocraticamente, apenas cumpriram seu papel.

O primeiro caso que me ocorre, contaram-me os servidores. Diziam que ele foi ao Detran resolver um problema e, após horas na fila sem se identificar, no momento em que ia ser atendido, o funcionário disse solenemente: “expediente encerrado” e fechou a pequena janela sua cara. Ele identificou a pessoa e mandou um convite para que fosse à Justiça Federal. O homem lá chegou, amedrontado, vivia-se no regime militar. Ele o recebeu educadamente e mostrou os três andares da Justiça Federal, à época na rua 15 de Novembro. Finalizou, levando o homem ao térreo e disse, sem qualquer sermão: “Sr. Fulano, eu só queria mostrar-lhe que aqui fazemos questão de atender bem a todos que nos procuram”.

Nos anos 1980, vez por outra, vinham ministros do Tribunal Federal de Recursos. Em 1983 chega um deles e era preciso recebê-lo bem. Milton avisou-nos que daria um jantar em sua casa. Lá fomos todos, cerca de 12 pessoas. A comida, preparada por sua esposa Mary — morreram com horas de diferença, no mesmo hospital, com 52 anos de matrimônio — feita com capricho. Seus cinco filhos, ainda crianças, ajudaram a servir e arrumar a mesa, depois brindaram-nos tocando piano. Vi algo incomum, uma linda e diferente recepção familiar.

Quando da mudança da Justiça para o prédio que agora leva o seu nome, estava eu sentado em uma mesa, com dois diretores de Secretaria, deliberando sobre a lotação de funcionários, porque a Vara havia sido desmembrada em duas. Ele passou e, percebendo a dificuldade da divisão, recomendou-me: “Na dúvida, pense no que atende mais ao interesse público e decida”. Essa lição levei para toda minha vida.

Dessa época, outra passagem curiosa. Milton, como diretor do Foro, foi a Brasília em viagem oficial. Ao retornar, entregou ao diretor administrativo as notas fiscais de suas despesas e, dando um cheque em branco e assinado, disse: “as despesas foram menores que as diárias, portanto, recolha a diferença a favor da União”. O diretor, após tentar convencê-lo de que não precisava devolver o dinheiro, perdeu dias até descobrir como recolher a diferença aos cofres públicos, porque até então nunca alguém tinha procedido daquela forma.

O corregedor do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Tadaaqui Hirose, conta que, ao prestar o concurso em Brasília, no dia da prova oral, recebeu a visita de Milton Pereira, então convocado no TFR. Dele ouviu: “Dr. Tadaaqui, hoje de manhã fui à Igreja e rezei para que o senhor faça uma boa prova”.

Poucos anos depois, indicado em lista tríplice para o TFR, foi procurado por um advogado de péssimo conceito, que ofereceu apoio político. Evidentemente, para depois tornar-se credor do favor e cobrá-lo com juros e correção monetária. Ele respondeu: “Dr. Fulano, se o senhor quer me ajudar, reze por mim”. A um só tempo, rejeitou a oferta e não melindrou o homem, revelando sabedoria política.

Quando foram criados os TRFs, ele foi para São Paulo, presidir o TRF-3. Um assessor conta que, certa feita, o tribunal decidiu, administrativamente, pelo pagamento de diferenças salariais.

Ele entregou um ofício ao assessor, dizendo: “Entregue no setor de pagamentos, não aceito receber esse dinheiro. Recomende ao diretor que não comente isto com ninguém, pois não quero parecer melhor do que os outros”. Em outra ocasião, o assessor entrou na sua sala, às 13 hs, e encontrou-o ajoelhado, rezando. Saiu rapidamente. Depois, chamado, ouviu a explicação: “Temos sessão hoje e sempre peço a Deus que, nos meus julgamentos, eu não cometa injustiças”.

Nomeado ministro do STJ, jamais se deixou inebriar pelo cargo. Jamais aceitou que o carro oficial o levasse do aeroporto à sua casa quando ia visitar a família, em caráter particular.

Quando foi coordenador do Conselho da Justiça Federal, criou um curso de hermenêutica à distância. Narra a presidente do TRF-4, Marga Tessler, que ao fazer o curso surpreendeu-se com o interesse do ministro que, inclusive, se comunicava com os participantes enviando mensagens. Por expressa recomendação dele, ela leu o livro Didascalion – a arte de ler, escrito por Hugo de San Victor em 1127, que acabou influenciando-a por toda a vida.

Em 2007, já aposentado, recebeu em sua casa a visita do diretor do Foro Marcelo Malucelli e da presidente da associação local, Flávia Xavier, que vinham pedir autorização para que fosse dado seu nome ao Fórum Federal. Exibiram ambos ato do Conselho da Justiça Federal, permitindo que pessoas vivas fossem assim homenageadas, desde que aposentadas. Ele ouviu atentamente, agradeceu e não aceitou. Disse: “Esperem que eu morra”.

Dezenas de passagens de Milton Luiz Pereira são transmitidas oralmente. E não só das atividades de magistrado, mas também dos tempos de estudante de Direito — venceu um concurso nacional de oratória —, de radialista, de advogado, de prefeito de Campo Mourão — onde recebeu, ao deixar o mandato, um Volkswagen de presente da população — e de professor — dedicado e rigoroso.

Exemplos como o dele devem ser lembrados e divulgados. E que frutifiquem, para o bem do Brasil.

Vladimir Passos de Freitas é desembargador federal aposentado do TRF 4ª Região, onde foi presidente, e professor doutor de Direito Ambiental da PUC-PR.

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...sganha, sganha, sganha até que venha fora la boracheta...

Essa quem sempre me conta é o Amélio Guadagnin. É sensacional pela homenagem que costumeiramente faço aos pioneiros italianos.


Nos anos 1950 surgiu e virou moda a criançada e a juventude mascar chicletes.


Os primeiros, aqueles das caixinhas amarelas com duas drágeas de chicletes quadradinhas e que sempre podiam se fazer a bola de ar no final.


Isso era o máximo para aqueles tempos.


Havia um casal italianão, Fioravante Gatti, casado com a Pierina, que tinham 14, é isso mesmo, 14 filhos - quatro meninos e dez gurias.


Imaginem que bela família. Um atrás de outro com diferença de um ano para cada filho. Aquilo era encordoado feito teto de porca.


Numa das idas para a cidade fazer as compras de alimentos e peças de algodão para as roupas do piazedo e das meninas, eis que o vendeiro apresenta a novidade/chicletes para o italiano, e explica - não pode engolir, é só mastigar e sentir o adocicado deste caramelo interminável na boca. As crianças vão gostar muito.


Fioravante compra uma caixinha para cada um dos filhos, 14 caixinhas.


E ao mostrar a grande novidade para os filhos faz a explicação necessária, do seu jeito e na mistura de português com o dialeto vêneto, característico do norte da Itália e muito falado até hoje pelos imigrantes.


Explica - olhem guris e gurias, vocês pegam essas baletas, ponham na boca e dópo sganha, sganha, sganha até que venha fora la boracheta, mas não me engula heim, porque me gá dito ô bolichero que vá dar nó em le tripe e fá muito male, gá visto e capisto tuti?

E o chicletes faz sucesso até hoje, em muitas outras formas e sabores.


Essa é mais uma homenagem aos muitos imigrantes que ajudaram este sul brasileiro a ser um paraíso de progresso neste Brasil de contrastes.

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Banho, você ainda toma, comadre?

O advogado André Veiga da Silva, recentemente falecido em Rio Branco, no Acre, foi uma figura muito conhecida e querida aqui em Campo Mourão. tendo sido presidente da UMES e um dos fundadores da MOCAM.


Era pessoa admirável e venceu pelos seus méritos, pois nem conheceu seu pai e sua mãe foi enterrada em Maringá como indigente, fato que sempre chorava ao narrar.


Recentemente André Veiga da Silva foi motivo de polêmica para o nome do Centro da Juventude, que acabou ficando, merecidamente, diga-se, com o progenitor da família Tagliari, merecedor de todas as honras no campo esportivo da história de nossa cidade


Com sua primeira esposa, Cleunice, tiveram o primogênito André Veiga da Silva Júnior, hoje funcionário do Banco do Brasil no estado onde seu pai faleceu.


O Júnior é nosso afilhado de batismo, eu a a dona Jussara que o batizamos ainda noivos, no começo do ano de 1978.


Sempre tive com o André uma amizade sólida e com ele estudei todo o ginásio, sempre repartindo discursos nas seções cívicas que o prof. Egydio Martello e o prof. Nicon Kopko realizavam todas as semanas no vetusto Colégio Estadual.


Logo que o Júnior nasceu, minha comadre Cleonice, esposa do André, converteu-se para a igreja cristã Adventista, passando a respeitar os sábados, como determina o fundamento daquela fé.


Além de guardar o sábado, os adventistas também têm uma gastronomia própria, excludente de muitas coisas que para outras pessoas são normais, mas para os adventistas são proibidas e/ou não recomendáveis para a crença e a saúde.


Certa feita, eis que chega em casa a comadre para uma visita com nosso afilhado.


Feita a recepção normal, a Jussara, como soe nos mais elementares padrões de educação e lhaneza, foi preparar um café para nossa comadre visitante.


Disse ela - não, não faça café. Não tomo mais café, é estimulante e minha nova religião não permite.


Então ofereceu-lhe um refrigerante. De igual modo, recusou pelo mesmo motivo, é estimulante.


Havia sobre a mesa um pote com amendoins recém torrados no forno, deliciosos, aliás.


Estes, ela disse que nem podia chegar perto.


Aí não me contive, fui direto ao ponto, com certa ironia, confesso, e disse-lhe no seco: mas tomar banho você ainda toma, né comadre?


Claro, rimos, conversamos sobre nosso afilhado, ela tomou um chá leve com biscoitos caseiros, e nossa amizade permanece até hoje, mas sem o compadre André que morreu com 59 anos, de enfarte ou enfarto, como queiram, no Acre.

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O causo da poltrona 41, da viagem para São Paulo.

Colunas passadas, contei a história do agente de passagens, amigo do Oswaldoir Capeloto, sobre a velhinha que pediu para picar a passagem na frente, porque atrás lhe dava ânsia de vômito, lembram?


Pois agora outro causo com o agente Oscar, funcionário da Viação Garcia, na época, pois isso já faz muito tempo.


Certo dia estava o competente agente no seu local de trabalho expedindo "picando" as passagens costumeiras para os diversos passageiros da região.


Eis que chega um conhecido, quase amigo, e lhe pede uma passagem para São Paulo, mas na frente do ônibus. Não queria na parte de trás de jeito nenhum.


O agente lhe informa - para São Paulo hoje só tem mais duas poltronas vagas, a 41 e 42.


- Mas Oscar, a 41 e a 42 são lá perto do banheiro, como vou dormir com o abre e fecha da porta do banheiro, me arruma uma mais na frente.


- Não temos mais, só a 41 e a 42.


Quase como coisa mandada, chega uma loira linda, jovem, bem vestida e exalando o cheiro bom do seu perfume, e pergunta ao agente Oscar - tem passagem para São Paulo, pra hoje?


Mais que pronto o agente Oscar informa que só há duas ainda - a 41 e a 42.


- A loira pergunta, qual é a da janela?


- A 42, responde o agente.


- Então me veja a 42.


Logo que loira sai com a passagem na mão, o amigo que estava reclamando e querendo uma passagem mais na frente, mais que depressa pede ao agente a passagem 41.


- Já que não tem mais passagem, vai a 41 mesmo. Claro, com a nítida intenção de viajar a noite inteira ao lado da loira que lhe chamara a atenção.


Dez e pouco da noite encosta o ônibus na Rodoviária para o embarque dos passageiros que rumariam a São Paulo naquele dia as dez e meia.


Chega a loira e acompanha o seu pai, já bem velho e o acomoda confortavelmente na poltrona 42, desejando-lhe uma boa viagem e que ligasse para ela assim que chegasse em São Paulo.


O exigente passageiro que não queria viajar na parte traseira do ônibus, e ficara entusiasmado com a possibilidade de viajar ao lado de uma linda loira, mesmo no fundão, teve que ir na poltrona 41, do corredor, bem em frente à porta do banheiro até São Paulo, com o pai da loira.


E o velho logo dormiu e roncou a noite inteira.

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Se eu for no médico ele vai me encher de doença.

Para nossa cidade vieram no início da colonização várias famílias imigrantinas de origem européia, italianas, ucranianas, japonesas, alemães, portuguesas, espanholas, austríacas, francesas e polonesas.

Uma das muitas polonesas, foi a kiedzerski, do seu Wadeco, pai do "Polaco Pintor", o Teodoro Kiedzerski, cunhado do Darcy Deitos, vez que foi casado por muitos anos com sua irmã Anita Deitos.

O seu Wadeco foi pintor de paredes, ofício que deixou por herança para seus filhos Édio e Teodoro.

Seu Wadeco era um polacão da gema.

Pronúncia carregada, palheiro sempre na boca, fumo forte, pinguinha antes e depois do almoço, e durante o dia, com sua inseparável bicicleta já sem cor nem pára-lamas pelo uso e falta de manutenção típicos dos antigos.

Era homem simples por demais.

Aposentou-se e para manter seus pequenos vícios do fumo para seu palheiro e seus tragos constantes, tinha uma pequena horta nos fundos da sua casa no Jardim Flórida, onde cultivava verduras e as vendia com uma cesta de vime amarrada na garupa da bicicleta.

Sempre parava para tomar uma cuias de mate no Avelino Vígolo, na EPPAL, esquina da Irmãos Pereira com a Rua Mato Grosso, nosso ponto de chimarrão.

Certo dia, durante o mate, indaguei ao seu Wadeco que passara dos noventa (90) anos, se ele ia consultar com algum médico.

Respondeu-me ele: "sabe Rubinho eu só fui duas vezes ao médico. Uma vez em Araruna porque um jipe me atropelou e quebrou meu braço. Outra vez aqui em Campo Mourão porque eu cai da bicicleta e me machuquei bastante.

Você acha que eu vou em médico? claro que não, pois já passei dos noventa anos; se eu for no médico com essa idade, ele vai me encher de doenças e tenho certeza que as primeiras coisas que ele vai me proibir é a minha pinguinha e o meu cigarro.

Por isso, não vou no médico de jeito nenhum. Médico só enche a gente de doença"


Não sei se ele tinha razão ou não, mas viveu mais alguns anos, o seu Wadeco, e morreu com quase cem anos, por certo por ter um "gen" longevo.

Seu filho Teodoro, o Polaco Pintor, já passou dos oitenta e vive pintado casas e saltitando pela city como rapazinho. O polacada sacudida.

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Vai que me morre esse "demonho"

Quem está há mais tempo na cidade lembra do Avelino Vígolo, o italianão que foi gerente do Bamerindus e depois ficou dono da EPPAL que comercializava adubo e produtos para lavoura, e que ficava na esquina da Rua Mato Grosso com a av. Irmãos Pereira, onde hoje está o Posto VIP.


O Avelino também tinha uma fábrica de adubo perto do antigo cortume, na saída para Iretama, pouco adiante do viaduto do contorno e antes da fazenda experimental da Coamo, onde também tinha um campinho de futebol suiço que sempre realizava jogos amistosos com equipes locais, nos sábados.


O Avelino possuía um baita coração, mas morreu muito novo, aos 47 anos, vitimado pelo excesso de bebidas. Morreu logo que voltou para Santa Catarina, sua terra natal.


Avelino mantinha diariamente um ponto de chimarrão na sua firma, onde muitos agricultores e amigos passavam por lá para matear. Era um local central e tradicional ponto de chimarrão.


O papo corria solto e sobre todos os assuntos do dia, política, futebol, gastronomia, arquitetura, e tudo o mais que uma roda de amigos fala. As vezes se falava até sobre mulheres, as famosas.


Era muito gostoso o ambiente da EPPAL e as prosas do Avelino com seu "erre/eri" carregado, como todo bom descendente de italiano, e ele era gringo da cepa, italianão mesmo.


Nunca me esqueço de um dia que ele estava ao telefone fechando uma carga de produtos agrícolas para o agricultor Benito Ferri.

Do outro lado da linha a pessoa indagava como se escrevia "Ferri", pois ele dizia "Feri". Lá pelas tantas ele esbravejou: "já te falei, Benito Feri, carr...., Feri com dois eri, car..."


Mas noutra ocasião, num sábado, estávamos mateando, Martin Kaiser, Amélio Guadagnin, falecido compadre Jairo Ramos, Gerson Salvadori, este escriba, quando o Avelino, que na época tinha um "Del Rey Ford, preto de quatro portas", arrumou suas coisas e recomendou ao compadre Jairo - na hora que vocês terminarem o mate, limpe a cuia e feche a loja pra mim, pois vou levar minha sogra para Ivaiporã.

Todos falamos - vamos terminar o mate, vá depois do almoço, tranquilo.

Mas veio a inusitada explicação: "vou levar já, pois vai que me more esse demonho em casa".


A sogra, pouco tempo depois, enterrou o genro, mas que a preocupação foi particularmente hilária, isso foi.

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Bêbado no comício do Zeca Boiko.


Nos anos 1990, houve uma eleição em que o José Boiko, o Zeca Boiko, foi candidato a deputado estadual dobrando com seu guru Rubens Bueno. Estavam, os dois, naquela época no PSDB.


As campanhas políticas naqueles anos eram regadas e nutridas pelos comícios, que hoje praticamente foram banidos da política ante a proibição de contratação de shows artísticos, duplas sertanejas, gaiteiros, repentistas e outros.


Na verdade o povo ia mais para ver os artistas que os políticos. Mas estes sabiam usar a palavra para, junto com os artistas, levarem sua mensagem e os votos dos participantes do comício, claro.


Pois foi num comício no interior do município de Roncador que esse causo aconteceu. Quem me contou foi o Rubens Bueno, que estava no comício.


Como todos sabem o Zeca Boiko era um dos donos da empresa de ônibus "Expresso Nordeste" que há muitos e muitos anos faz linhas por todos os municípios desta vasta região.


Hoje ele é um dos proprietários da "Brasil Sul" que está sediada em Londrina, não é mais sócio da Nordeste.


Durante os comícios sempre aparecia um bêbado. Era normal e até uma praxe ter um bêbado perturbando as falas nos comícios. Neste não foi diferente. Falava um vereador e o bêbado logo comentava: "esse cara é mentiroso, não fez as estradas que prometeu".


Veio falar o prefeito e referiu-se ao então senador José Richa, e o bêbado: "esse é filho da ditadura". E ia por aí. Para todos o bêbado tinha um comentário fatal.


A estrela do comício era exatamente o Zeca Boiko, o candidato a deputado estadual, razão do comício e muito ligado ao município de Roncador.


Quando o apresentador anunciou a palavra do "nosso candidato a deputado estadual Zeca Boiko", último orador, foi a deixa que o bêbado queria.


Gritou o bêbado: "esse tirou o ônibus do Alto São João".


Claro o Zeca Boiko fez normalmente o seu discurso, mas muito encabulado, como é o normal do seu jeito de ser.


É preciso que os comícios voltem como era antigamente, pois eles fazem parte do folclore da política, sem dúvida.

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O "papai noel" que chegou de "sputnik".

Chegamos em Campo Mourão, minha família, no final dos anos 1950.

Era uma Campo Mourão pequena, sem estrutura, sem luz, sem asfalto, sem prédios - só casas de madeira que abundavam por todos os cantos -, mas os sonhos, as imaginações de crianças eram as mesmas das crianças de hoje, apesar de todos os avanços tecnológicos.

Pois foi neste clima que aos meus seis anos participamos do nosso primeiro natal com "um" papai noel entregando nossos presentes. Naqueles anos os presentes eram tradicionais, carrinhos/caminhãezinhos de madeira para os guris e bonecas/bonecas de choravam e piscavam, para as gurias.

Nosso primeiro natal com papai noel foi no jardim da casa do nosso primo Aldo Casali, na av. José Custódio de Oliveira, onde hoje a Casali expõe suas piscinas, bem ao lado da sede tradicional da Casali em Campo Mourão.

Reunidas as famílias aparentadas - Casali, Panceri, Sartori, Antunes de Oliveira, mais a dos amigos e vizinhos - Maylard, Dolci, Batke, do seu Cazuza, Seki, enfim, dos pioneiros daqueles tempos.

Nós, as crianças de então, estávamos eufóricas pois chegaria o papai noel na noite de 24 de dezembro. Nosso primeiro papai noel, e em terras do Paraná.

Lá pelas 10 da noite chega o papai noel, falante, alegre, tocando um sininho, dizendo que chegou de "sputnik" ( na época a União Soviética lançara seu primeiro voo tripulado com a cadela Laika, no foguete sputnik, e era moda falar do sputnik ) e com o saco vermelho cheio dos presentes da criançada.

Após os conselhos de praxe e as advertências para o ano seguinte, como estudar muito, obedecer aos pais e comportar-se bem, começa a chamada e a entrega dos presentes.

Na minha vez, ao receber meu caminhãozinho cabine vermelha e carroceria amarela, de madeira, ao abraçar o papai noel e olhá-lo como toda criança faz, com espanto, admiração e curiosidade, eis que miro os pés do alegre papai noel e conheço o sapato.

Quem tinha um sapato daquele tipo, marrom e "sanfonadinho" no peito do pé era o Tio Miguel Antunes. Só ele tinha aquele tipo de sapato.

Então, admirado mas desconfiado, eu reconheço o papai noel - era o Tio Miguel.

Ao dizer para ele que ele era o Tio Miguel, claro, ele negou e reafirmou que era apenas o papai noel que chegara de sputnik para nos trazer os presentes. Mas eu insisti, é o Tio Miguel.

Até hoje, vez que o querido Tio Miguel está entre nós, lúcido, no alto dos seus mais de 92 anos ( Tio Miguel é do dia de São Miguel em 1920, 29 de setembro), ele lembra que a única criança que o reconheceu foi o menino Rubinho Sartori.

Visitem o tio Miguel, seus amigos, pois ele não tem saído mais de casa, por motivos óbvios de quem tem 92 para 93 anos....

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"Me pica uma passagem na frente, porque atrás me dá...."

Esse causo quem me contou foi o meu bom amigo e confrade de Academia Mourãoense de Letras - AML, Oswaldoir Capeloto, exímio poeta e escritor, culto e modesto.

Contou-me ele, que quando morava em Pitanga, o município mãe de Campo Mourão pois este emancipou-se daquele em 10 de outubro de 1947, certa feita estava na estação rodoviária de Pitanga, onde tinha um amigo, de nome Luis, que lá laborava exatamente na agência de passagens da empresa de ônibus Nordeste, que sempre atendeu no transporte rodoviário com ônibus aquela região do nosso Estado, quando chegou um senhora de idade, bem velhinha mesmo, que morava na localidade de Água do Macaco, interior do município de Pitanga.


O costume, ainda hoje, naquelas plagas onde o linguajar caboclo impera, é solicitar a passagem de ônibus com o pedido "picar passagem", pois em tempos mais remotos o bilhete de passagem era literalmente com um instrumento que perfurava o bilhete de papel para dar-lhe a autenticidade e regularidade no embarque, quando o cobrador "picava" a passagem para o início da viagem, informava ao motorista que tudo estava em ordem para começar a viagem.


Essa era a senha de trabalho do profissionais de transporte nos ônibus, e esse era o costume e a praxe que ficou no imaginário do povo.


Pois nesse dia do causo, a referida velhinha, já mencionada, chegou no balcão da agência e ao solicitar sua passagem fê-lo da seguinte forma: "Bom dia, Luiz - meu fio, me pica uma passagem pra Água do Macaco, mas me pica na frente viu, porque atrás me dá sempre ânsia de vômito, viu fio..."


Pitanga, como toda aquela circunvizinhança mantém vivo o linguajar típico do caboclo paranaense, rara riqueza cultural que deve ser preservada para nossa identidade cultural regional, patrimônio imaterial e infungível da primitividade espontânea da língua pátria regional, a que os linguistas devem focar suas pesquisas e teses.


É muito peculiar "o falar" daquela região. Confiram, visitando-a.


Meu filho está fazendo curso de lavadeira, ao invés de ser general.


Antes de virmos para Campo Mourão, nos idos dos anos 1950, meu pai, o seo Gastone, foi ferreiro e trabalhou na manutenção do maquinário da Perdigão, na cidade de Videira-SC.


A Perdigão estava começando, não era ainda a potência que é hoje juntamente com a Sadia, formando a nova Brasil-Foods.


Papai, juntamente com um torneiro um pouco mais velho, de origem alemã, formavam a dupla que conservava e consertava toda a maquinaria da novel indústria de alimentos de origem animal que nascia no vale do Rio do Peixe, em Santa Catarina, de nome Perdigão, exatamente em homenagem às grandes perdizes que abundavam naqueles rincões catarinenses.


A Perdigão já prenunciava ser a grande indústria alimentícia que se tornou. Naqueles anos pioneiros, não existiam peças de reposição como hoje, era necessário o trabalho artesanal do ferreiro e do torneiro para repor e regular peças das máquinas. Não existia computação, regulagem eletrônica, nada. Era tudo na mão, no olhômetro, na sensibilidade de quem trabalhava por intuição e esmero.


Essa foi a base que meu pai teve antes de vir para Campo Mourão e iniciar sua ferraria com seu primos Aldo e Oscar Casali, na Mecânica Casali que até hoje é uma tradição nesta cidade.


Mas a história é outra. O companheiro de meu pai, o alemão torneiro que já falei. tinha um filho em idade de servir o Exército.


Foi selecionado e foi servir no Rio de Janeiro, pois os catarinas por terem origem européia eram de estatura alta e o Exército sempre os selecionava para a capital federal, pois além de fortes, eram disciplinados e bem educados, como se dizia na época.


Naqueles anos, os soldados do Exército, enquanto serviam seu tempo anual, não ganhavam nada, a não ser a comida e a acomodação nos quartéis.


Para os "extras" os soldados tinham que receber grana da família ou fazer "bicos" para os colegas.


O filho do alemão/torneiro mandou uma carta para o pai contando que nos finais de semana lavava a roupa dos colegas de farda, para ganhar algum dinheiro para poder tomar um sorvete, comprar cigarro e outras pequenas necessidades pessoais.


Com a carta na mão, o dito alemão/torneiro companheiro de trabalho de meu pai, decepcionou-se e disse: "Olha Gastone, mandei meu filho pro Exército, para que ele se tornasse general, fizesse carreira, mas veja, ao invés de estar fazendo curso para general está fazendo curso de lavadeira..."


Claro, toda a Perdigão ficou sabendo e as risadas foram muitas...

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A nona que criou 10 filhos com uma sopa só.

Esse é um causo muito popular na região gringa/italiana da serra gaúcha, particularmente na estação de trem de Caxias do Sul. Claro que eu acho que é folclore, mas muitos afirmam que é verdade.


Havia uma senhora que ficou viúva muito jovem ainda, mas tinha dez filhos para criar. Italiano sempre tem muitos filhos: bênção de Deus, dizem....


Na cultura gaúcha/italiana a viúva é viúva mesmo. Fica pelo menos um ano de preto, não usa outra cor, só preto, em respeito ao morto. Algumas nunca mais casam e usam negro para o resto da vida.


Quando os primeiros netos vão nascendo, deixam de ter nomes próprios, viram nonas, só nonas. Nona em italiano quer dizer avó.


Pois essa viúva tradicional, nona, com seus dez filhos, sempre de preto na roupa, morava perto da estação de trem, como já dito, e não ficou com situação financeira estável; era pobre e ainda com 10 filhos. Mas a dignidade pessoal e os costumes sempre imperam nesse povo.


Como fazer agora, então, para criar os filhos?


Ora, não teve dúvida!!
Como faz sempre frio naquela região da serra gaúcha, o que que o povo que viaja de trem precisa? resposta fácil: um caldo quente quando o trem faz parada na estação.


Pensou bem nossa nona: vou vender sopa para os passageiros do trem.


Preparou um panelão de sopa. Quando o trem apitava que estava próximo da chegada na estação - apito de trem é a coisa mais maravilhosa do mundo, pois é sinal de vida e da chegada de gente nova -, ela metia fogo no fogão, muita lenha, fogo forte. A sopa ficava um borbulho só.


Claro, o trem pára pouco tempo na estação.


Ela chegava, naquelas noites frias, oferecendo um prato de canja, sopa de galinha. Quase todos os passageiros compravam. Mas na hora de tomar a sopa, era muito quente, quente demais. Então cada passageiro dava uma, duas colheradas, o trem apitava e os pratos ficavam quase todos cheios.


O trem partia, ela recolhia os pratos quase todos intactos, punha de volta no panelão e ficava aguardando novo trem.


A técnica era a mesma: fogo, muito fogo na panela, todos os pratos de volta cheios, pois ninguém conseguia consumir a sopa quente demais.


Assim, com uma sopa só, ela criou os 10 filhos. Natural que, de vez em quando, ela completava com um pouco mais de água para manter o nível da panela...

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..."moto cross", chegamos no Mato Grosso...

Esse causo é verdade verdadeira e se deu por volta de 1989.


Quem não conhece o Lírio Maggioni, que por aqui morou muitos anos, foi patrão do CTG e que hoje está em Água Boa-MT onde foi eleito vice-prefeito nestas eleições de 2012.


O outro personagem é o não menos conhecido Jairo Bitencourt Ramos, irmão do falecido Quinho, do Ié, do Sid e do Oscar, os irmão Ramos do Grupo Minuano, que cantava muito e muito bem.


O Jairo, meu inesquecível compadre, já nos deixou há mais de 10 anos, falecendo muito cedo por um problema cardíaco.


Tanto Lírio quanto Jairo eram gaúchos de quatro costados. Gostavam de uma boa música, bem churrasco, de festejar a semana farroupilha e, claro, uma carreira de cavalos.


Pois foi para uma carreira que essa dupla de amigos estava indo para o Mato Grosso.


Saíram de Campo Mourão cedote e rumaram para Guaíra onde, depois de passar a balsa - naquele tempo a ponte Airton Sena ainda não estava pronta -, iriam até Mundo Novo-MS onde o Lírio tinha atado uma carreira.


Tão logo atravessaram o rio paraná pela antiga balsa, e começaram a trafegar pelas três fronteiras que alí existe - Paraná - Mato Grosso do Sul e Paraguai, ficaram em dúvida se estavam em solo brasileiro ou paraguaio, pois depois do rio, pelo lado direito da rodovia, já começa o território do Paraguai.


Como não conheciam bem as divisas iam conversando sobre ela. Lírio dizia que estavam em território brasileiro e Jairo, paraguaio.


Eis que num pequeno aclive da estrada havia uma faixa de uma prova de "moto cross" que aconteceria por ali naqueles dias.


Lírio, como bom observador mas meio atrapalhado de letras e de leitura, não teve dúvida e prendeu o grito para o Jairo: não te falei, estamos no Mato Grosso, olhe a faixa "Moto cross....o", chegamos no Mato Grosso, é o que diz a faixa...


O compadre Jairo, que também não era muito letrado, leu a faixa e confirmou: é verdade, chegamos no Mato Grosso e tem até faixa de agrado pra nóis....


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Inauguração do TELEX.

Nos anos 1960/1970 o agente dos correios em Campo Mourão era o sr. Carlos Mareck. Os correios funcionavam numa velha casa de madeira na esquina do Colégio Mal. Rondon, exatamente onde hoje está o consultório do Dr. Laércio Daleffe.


Enquanto era construída a sede onde hoje funciona a agência dos correios, na Rua Francisco Albuquerque, quase em frente à Câmara Municipal, o correio foi instalado provisoriamente na prédio da Sapataria Paulista, na Av. Irmãos Pereira.


Comecei a faculdade de Direito em Maringá no ano de 1972. Como eram poucos universitários nessa época, não tínhamos ônibus exclusivo para irmos à UEM e cada um se virava do seu modo para conseguir estudar em Maringá.


Nós, Ademar Kenhiti Issi, Carlos Roberto Mareck, filho do agente dos correios citado, e este escriba, fizemos uma parceria e viajamos durante vários meses no anos de 1972 com a "Vemaguet-DKW" do seu Carlos Mareck, onde dividíamos o combustível.


Era um carrão: câmbio no volante com a "quinta-louca", uma espécie de piloto automático daqueles tempos. Sempre fazíamos boa viagens, indo e vindo de Maringá todas as noites.


Num desses dias do ano de 1972 o Carlos Roberto Mareck avisou-nos que iríamos atrasar um pouco a saída para Maringá que era sempre por volta das 17:45/18h, pois haveria uma grande cerimônia de inauguração do TELEX na cidade.


O TELEX era o que havia de mais avançado em termos de comunicação escrita, pois recebia numa espécie de fita contínua as mensagens que eram enviadas, em tempo real, de qualquer parte do mundo para quem quer que fosse. Isso era o máximo na época, pois nem se imaginava um fax ou coisa parecida.


Lembro que no final daquela tarde da inauguração do TELEX, houve banda de música, palanque de autoridades, discurso do Dr. Horácio Amaral - prefeito, do Dr. Armando Queiroz - deputado estadual, do deputado federal Norton Macedo, dentre outros, pois o TELEX era o que havia de mais moderno e avançado na comunicação escrita e instantânea naqueles anos 1972.


Como todos sabem, os mais antigos pelo menos, o TELEX existiu por alguns anos e virou peça de museu com a chegada do FAX e da fotocópia.


Naqueles anos 1972 era motivo de inauguração solene com festa política de arromba, pois a afirmação era de que Campo Mourão entrava, com o TELEX, no rol dos poucos municípios brasileiros com essa moderníssima forma de comunicação e integração ao mundo do avanço científico e tecnológico que começava a se irradiar pelos rincões brasileiros.


Não existia, pasmem, sequer DDD telefônico. Interurbano telefônico era palavra de ficção científica ou dos filmes de 007.


Falar disso hoje e imaginar que mereceu até inauguração com banda de música é motivo de riso, porém na ocasião foi um fato marcante, significativo e politicamente importantíssimo.


Faz só 40 anos e muitos nem sabem que existiu a maior tecnologia em comunicação até o final dos ano 70, que foi o TELEX.

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Seu Mário Arana, porteiro do Cine Plaza.

Essa história quem me confirmou dia desses, num encontro casual numa de suas visitas na city, vez que hoje ela mora em Maringá, foi a Clarice Arana, filha do inesquecível "Seu Mário Arana", que foi um dos pioneiros da nossa cidade e por muitos anos foi porteiro do Cine Plaza.


No anos 60 e 70, havia uma censura danada para filmes ditos "pornôs", mas que na verdade tinham um apelo sexual próprio da época, as vezes com um beijo mais quente ou topless de atrizes, pouco mais que isso. Mas as sessões eram rigorosamente proibidas para menores de 18 anos.


A piazada ainda "de menor" adorava falsificar a idade nas carteirinhas de estudante para tentar enganar o seu Mário Arana e entrar no cinema para assistir as sessões proibidas.


Seu Mário, macaco velho, conhecia a maioria da gurizada e sabia quem tinha mais de 18 anos e quem não tinha.


Pouco antes da sessão começar os "maiores falsos" chegavam em bloco para entrar, mas seu Mário não deixava.


Alguns iam embora, outros ficavam insistindo a piedade do porteiro do cinema, mas ele era inflexível.


Vez por outra, quando o filme não era tão pernicioso assim, na sua ótica de bom cristão, deixava entrar alguns que ele julgava mais maduros e educados, pois os que ficavam "boquejando" não entravam de jeito nenhum.


Quem ficava sentado, quieto, só esperando, depois que os outros piravam embora, seu Mário fazia um sinal com o dedo e os escolhidos entravam de fininho.


Quem sempre levava sorte, por ser muito educado e por gozar da simpatia do seu Mário era o Tião Neri.


Todos nós mourãoenses que temos mais de 50 anos, nos lembramos bem do seu Mário na portaria do Cine Plaza, aliás único ponto de encontro da juventude naquele tempo sem televisão, sem baladas, sem luaus, sem ipod, sem facebook, sem internet, onde o programa de domingo era ir na missa das 7 da noite na catedral São José e depois na sessão das 20:15h no Cine Plaza.


Após a sessão de cinema, uma vitamina no Seu Luiz, onde hoje é a Boca Maldita.


Como era gostosa aquela vitamina do seu Luiz... única da cidade.


Que saudade!!

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As gôndolas do Parque do Ingá.

No ano de 1972, quando prestei vestibular ainda na Faculdade de Direito de Maringá, que em 1974 passou a integrar a UEM - Universidade Estadual de Maringá, Maringá estava começando a crescer para se tornar a metrópole que é hoje.


O prefeito naquele ano era Adriano José Valente e a implantação do Parque do Ingá, cartão postal da cidade estava sendo concluído e toda a região ia para Maringá conhecer o maravilhoso Parque do Ingá.


Dentre todas as novidades que o parque apresentava, uma era o imenso lago no seu interior que o ornamentava e dá até hoje o equilíbrio ambiental para a fauna ali existente.


Quando da inauguração do Parque do Ingá, uma das idéias iniciais, era colocar, nos moldes de Veneza na Itália, algumas gôndolas para passeios no interior do lago.


A proposta foi levada para discussão na Câmara Municipal, como soe acontecer nestes casos.


Durante a discussão da proposta de colocar gôndolas no lago, um vereador falou: então vamos ver o preço de cada gôndola, e colocar de início umas dez (10) gôndolas.


Havia em Maringá naquela época um vereador muito simples, dono de uma oficina que reformava radiadores, que sempre se elegia, pois era popular e querido dos moradores.
Cultura? Tinha quase zero, pois só assinava o nome e lia soletrando letra por letra, mas era vereador e bem votado.


Pois esse vereador, que não lembro mais o nome, faz um aparte ao que propusera a compra das dez gôndolas - caro Colega, pra que comprar 10 (dez) gôndolas?
Isso vai dar muita despesa pro município, vamos comprar um casal e deixar que vão criando os filhotes. Logo teremos muitas gôndolas e sem custo para o município.



Claro que até hoje não há gôndolas no Parque o Ingá.

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Motorista particular, carro importado e só como massas e frutos do mar.

O Sérgio Kffuri, que já foi vereador e candidato a deputado federal na nossa cidade, é pessoa conhecidíssima e querido por todos que o conhecem e com ele convivem.

De família pioneira da nossa city é irmão da Rose e da Carlita do 1º Cartório de Registros e Protestos da comarca.

Figura ímpar e sempre com uma piada nova no seu repertório.

Certa época ele morou fora de Campo Mourão, na capital do estado, onde sempre exerceu seu trabalho de corretor de imóveis e outros serviços imobiliários próprios de seu ofício na área.

Como fazia tempo que não o via, certa manhã encontramo-nos na "Boca Maldita" e repartimos o prazer de tomar um café recheado de prosas e outros causos.

No meio da conversa veio a necessária pergunta: onde você tá morando e o que tá fazendo agora amigo Sérgio?

Respondeu-me com sua insofismável ironia e criatividade com verve à flor da pele.

Estou ótimo, morando em Curitiba, e ganhando o que quero. Agora tenho motorista particular, só ando de caro importado e como massas e frutos do mar.

De pronto veio a observação - então você tá rico e não conta pra ninguém, né Sérgio?


Rico? rico nada. Estou me virando como posso, correndo o dia inteiro, andando de ônibus e comendo pão com sardinha.

Essa é minha história de motorista particular, carro importado e massas e frutos do mar.

Aí uma baita risada, terminamos o cafezinho e continuamos a prosa com a chegada de outros amigos, onde todos riram com a estória do Sérgio Kffuri.

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Bela visita para um amigo que estava internado no hospital.

Nos tempos de desbravamento desta região entre as décadas de 1940 a 1960, muitas famílias de pioneiros eram filhos ou netos de imigrantes - poloneses, alemães, italianos, árabes, portugueses, espanhóis, ucranianos, dentre outros.


Nestas famílias, era comum o falar da pátria mãe.


Muitos nem conseguiam falar nossa língua portuguesa com algum entendimento. Isso só veio a ocorrer com a terceira geração, quando as escolas proliferaram e as crianças começaram a frequentá-las, aí aprendendo o falar e entender brasileiro. Os mais antigos vão lembrar bem essa afirmação.


Neste sentido, vale lembrar o causo do "porco senhorita" que contei há algum tempo, entre o italiano e o alemão.


Mas hoje quero contar o causo do internamento hospitalar.


Nos anos 1950/1960 só existiam quatro hospitais em Campo Mourão. O São Pedro dos doutores José Carlos Ferreira e Manoel Andrade. A primitiva Santa Casa, no centro, em frente ao Cine Plaza. O hospital do Dr. José Garcia Arias, hoje Policlínica e o hospital São José, do Dr. Cleso Nogueira.


Todos precários, de madeira, próprios da era pioneira e típica daquela época difícil e de pioneirismo dos nossos ancestrais, que sempre devem ser reverenciados pela sua tenacidade e capacidade de empreendedorismo em tempos de ausência de recursos de toda sorte - não havia energia elétrica, estradas asfaltadas, telefone, transporte precário, enfim, faltava de tudo, menos a força daquela gente de tutano e de muita fé.


Pois foi num dos quartos do Hospital São Pedro que estava internado um dos dos nossos pioneiros caboclos, quando vieram visitá-lo dois irmãos alemães, seus amigos.


Após a visita, o doente preocupado com a feições dos seus amigos alemães e não entendendo nada do que os dois conversaram na fugaz permanência no quarto do doente, pergunta para sua esposa, que entendia alguma coisa de alemão: o que os dois disseram aí na hora que me viram, fulana?


Ela, com cara de decepção também, responde: olha fulano, do que eu entendi, eles falaram que você não amanhece o dia.


Grande alento para um doente que recebia visita de amigos muitos sinceros, como aqueles alemães.

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Diante dessa "dispariedade" eu fico "fervoroso".

Pessoas que lidam e fazem comunicação, principalmente em rádio e TV, além de ter boa voz e boa postura, devem ter boa fundamentação teórica, conhecimentos gerais e da língua portuguesa; devem sempre sopesar a palavra pronunciada, pois depois que a palavra é dita não tem volta e a sua força constrói ou destrói, como diz o vetusto axioma popular: a palavra corta mais que a espada.


Parafraseando ainda o pequeno amigo ( no tamanho físico) Félix de Souza, mas grande comunicador de rádio - falar com quem entende é descanso de vida.


Mas hoje eu quero homenagear um dos nossos mais populares comunicadores de rádio e TV de Campo Mourão - o nome? não dou nem morto.


Esse presadíssimo amigo é campeão em pérolas disformes da nossa amada língua portuguesa.


Quem o assiste ou o ouve sabe bem do que falo e até aprecia, não raras vezes, suas derrapadas na língua portuguesa, principalmente quando fala de assuntos polêmicos e difíceis.


Mas é uma grande pessoa, com um coração do tamanho do mundo. O nome? Repito, não dou nem sob ameaça de morte por asfixia.


Noutro dia assistia a um dos seus programas e ele abordava um assunto polêmico e difícil, como sempre faz.


Depois de muitas fundamentações e repetições de argumentos, veio então essa grande sacada das suas incursões na dificuldade das arapucas da nossa língua, disse ele:


- Diante dessa "dispariedade" eu fico "fervoroso".


Todos entendemos o que ele queria dizer, mas como eu disse e para que não se perca nas ondas televisivas passageiras, vale a pena registrar, não acham?


Poesia medalha de prata em São Paulo.

Faz poucos dias que saiu o resultado do XX concurso nacional de poesia e prosa da Academia de Letras de São João da Boa Vista, Estado de São Paulo, um dos mais tradicionais concursos nacionais de poesia e prosa do Brasil, com participantes/concorrentes dos mais diversos estados do país.


Tive a honra de ficar com a medalha de prata deste renomado concurso, na categoria adulto, com o poema "NEBLINA DA SERRA".


Assim então, atendendo a vários e-mails e telefonemas que recebi pedindo-me que publicasse nesta coluna o poema, o faço agora pois devo atender meus leitores e amigos que desejam conhecer o poema.


Agradeço as palavras de carinho que recebi e deixo as estrofes singelas, porém significativas para mim, da poesia classificada e que será eternizada naquela augusta Academia do Estado de São Paulo.

Neblina da Serra

Neblina da serra

envolvente e espessa,

neblina da serra

não vá, não me esqueça,

neblina da serra me ensine a sonhar


Nas noites de outono,

de inverno ou verão,

tu nasces co’a brisa,

Tu dormes no chão.

Neblina da serra,

neblina da serra,

não sejas meleva

a esconder primavera.


Me ensine neblina

Teu doce envolver.

Teu manto suave

de sonho esconder.

Tão densa tu és,

tão simples de ver.

Neblina da serra

me ensine a viver.


Te vejo neblina

em todas manhãs.

Te invejo neblina,

por livre viver.

Tu escondes o monte,

o vale e a serra,

e nas madrugadas

me ensine esquecer.



E quando o astro-rei

com seu brilho feroz,

te esconde neblina

pro teu descansar,

tu dormes quietinha,

neblina da serra,

pra noutras manhãs a serra sonhar!.


Rubens Luiz Sartori



Instinto sexual não é extinto sexual

Quando eu lecionava economia política nos final dos anos 1970, ainda na antiga FACILCAM, pois a FECILCAM era FACILCAM, não era estadual era municipal, deu-se essa situação interessante e que serve de reflexão para quaisquer estudantes que têm que se comunicar na língua pátria, vez que em todas as profissões e funções a língua é instrumento fundamental para o exercício profissional e a boa comunicação.

Lembro-me muito bem que eu tinha passado aos alunos a teoria de Malthus.

Essa teoria ensina, em síntese, que os bens, serviços, alimentos e todo tipo de recursos para manutenção do ser humano cresce sempre em progressão aritmética, enquanto o ser humano se reproduz em progressão geométrica. Isto é: a manutenção é em soma, mas a reprodução é em multiplicação. Tudo isso por causa do instinto sexual natural da espécie humana, e tenderá, no futuro, causar um desiquilíbrio.

Havia um aluno inteligente, mas que quase não vinha às aulas e sempre nas provas ele dava uma "coladinha" e se safava. Eu via e sabia, mas como todo mundo que já estudou, colar é um costume comum no mundo estudantil, ou não é?

Esse aluno hoje é um próspero empresário na cidade, mas o nome eu não conto/dou por razões óbvias.

No dia da prova eu pedi a explicação da teoria de Malthus. Ele, como sempre, foi colando dos colegas nos cochichos naturais em dia de provas escolares. Lá da porta, observando-os, fiz de conta que não percebi.

Corrigidas as provas, trouxe as notas, e, como era meu costume, comentei e esclareci, pergunta por pergunta, todas as questões da prova.

Nesta pergunta eu dei zero para o aluno que mencionei. Ele veio até a minha mesa reclamar - ora professor, eu respondi a questão, veja, por que o senhor me deu zero?

Como ele não assistira a aula e só havia recebido a resposta de colegas via cochicho, claro que escrevera a resposta, mas não sabia o que tinha escrito.

Então, pegando sua questão, expliquei-lhe o motivo do zero. Disse eu: veja fulano que tu disseste que os produtos crescem em progressão aritmética enquanto o ser humano cresce em progressão geométrica, por causa do "extinto sexual", porém é por causa do "instinto sexual".

Ora se você extinguiu o sexo, não haverá aumento da população, mas a extinção do homem, pois "extinto" não aumenta, diminui.

Já o "instinto" é outra coisa ou não? Você recebeu a cola dos colegas mas confundiu extinto com instinto, são coisas diametralmente opostas.


Ele foi sentar quietinho, faltou depois poucas aulas, e, como já disse, hoje é um vitorioso na vida; porém ficou a lição certa de que a grafia de palavras exige conhecimento e sentido.


Por isso que muitos não passam em concursos e sofrem nos vestibulares.


É preciso conhecer a nossa língua e nossa escrita, concordam leitores?

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Fez "sucesso" várias vezes.

Quando atuei como Promotor de Justiça na comarca de Engenheiro Beltrão, entre 1980 e 1983, aconteceu esse causo/fato numa audiência para suprimento de idade.


O suprimento de idade judicial acontece quando uma adolescente com menos de 16 anos mantém relações sexuais com um homem maior de idade e ela e a família desejam o casamento.


Como a jovem menor de 16 anos não pode casar pela lei brasileira, só com a autorização judicial, chamada suprimento de idade, desde que presentes condições físicas e mentais afirmadas por meio de avaliação médica que basila a decisão do Juiz, faz-se o suprimento judicial.


Para isso, complementa-se com uma audiência, onde o Juíz, ouvido o Ministério Público e as partes interessadas, decide pela autorização do casamento da menor, suprindo-lhe a idade legal.


Pois estávamos analisando um pedido desses que vinha de Quinta do Sol, onde uma menor mantivera relações com um rapaz de 22 anos e desejava casar-se com ele.


O Juíz, depois Desembargador do nosso Tribunal do Justiça, Dr. Arquelau Araújo Ribas, educadíssimo, ao indagar ao pai da menor se ele sabia do desvirginamento da filha e desejava que o casamento se realizasse, o fez de maneira pudica e cuidadosa, para que o pai entendesse - pois era muito simplório e visivelmente analfabeto - perguntou: "...o senhor é o pai da moça. Como o senhor tem certeza que sua filha fez sexo com o rapaz aqui presente que deseja casar-se com ela?"


Ao que, virando-se para trás e mirando o rapaz que estava sentado no fundo da sala de audiências do Fórum, cabeça baixa, respondeu do seu jeito: "olha doutor Juíz, comigo mesmo ela não falou, mas falou para a minha mulher e mãe dela, que fez sucesso com esse rapaz que tá sentado alí naquela cadeira, não uma vez só, fez sucesso com ele várias vezes".

Claro que o Dr. Arquelau, segurando o riso, entendeu a resposta e todos nós também - eu, Promotor, o advogado que assistia a família, o escrivão que anotava tudo, enfim, os circunstantes da audiência que corria em segredo de justiça, pois como sabemos, fazer "sucesso" antes do casamento é complicado...

Quem é honesto não diz

Eu era menino no início dos anos 1960 quando meu saudoso pai montou o Açougue Mourão, na Rua Brasil, entre as avenidas Irmãos Pereira e José Custódio de Oliveira, ao lado do famosíssimo Bar Cerejeira, onde hoje estão aqueles salões de Barbeiros, ao lado da Vizzani.


Pois naquele ambiente de Rua Brasil/anos 60 sem asfalto e sem outros confortos modernos que aconteceu esse causo.


Nós precisávamos de um novo açougueiro para nos auxiliar/trabalhar no açougue, vez que o seu Deodato que nos servia tinha mudado para outra cidade.


Certo dia, pelo meio da tarde, chegou um senhor, bem apessoado, glostóra no cabelo, carteira profissional na mão e perguntou ao meu pai: "Fiquei sabendo que o senhor está precisando de um açougueiro. Queria me apresentar: sou fulano, tenho bastante experiência pois trabalhei no frigorífico em Apucarana e na rede Maia em Maringá, sempre fui bom no trabalho, honesto e estou precisando do emprego"


Meu falecido pai, o seu Gastone, mais que pronto respondeu: "olha cidadão, como tem outro na frente, lhe dou resposta no final de semana, o sr. volte no sábado que falaremos."


Ao despedir-se e sair, eu, como todo menino curioso e querendo aprender da vida, ralhei com meu pai: "ora pai, não tem ninguém na frente, porque o senhor não contrata esse homem, parece bom".


Aí a grande lição de vida que me guia até hoje.


Papai me respondeu: "olha filho, esse senhor não vai trabalhar conosco. Sabe porquê? Primeiro, se ele é tão bom e já trabalhou em grandes frigoríficos, como disse, como iria vir pedir emprego num açougue pequeno como o nosso. Portanto, não deve ser bom açougueiro ou possui outras falhas. E, em segundo lugar, guarde o que eu vou te ensinar agora: quem é honesto não diz. Se ele fosse realmente honesto, não diria. Guarde isso."


Que maravilhosa lição.


Ao longo da minha vida testei várias vezes o que aprendi naquela tarde com meu pai, simplório e de poucas letras - todas as pessoas que alardeiam honestidade não são honestas; e os bons profissionais sempre crescem para empresas maiores, não declinam na vida.


Aliás, estamos bem no momento dessa avaliação: o que tem de candidato falando em honestidade neste dias de campanha eleitoral, prestem atenção e depois confiram...


A música da campanha de Roncador.

Já contei um causo do prefeito Eleutério Galdino de Andrade que foi prefeito de Peabiru e de Roncador nos anos 1950 e meados dos anos 1960. o caso da cor da bandeira, lembram?


Foi um dos meus primeiros causos publicados. Então lá vai mais um no nosso saudoso prefeito Eleutério. Esse se deu na campanha para prefeito de Roncador em 1961.


Como todos lembram, o prefeito eleutério tinha a fama de possuir jagunços: se os tinha ou não tinha pouco importa, o que vale lembrar era a fama de tê-los.


Por isso, pela fama de ter jagunços, muitos temiam o prefeito Eleutério. E ele astutamente fazia valer essa fama para levar suas vantagens políticas. Sempre saiu vitorioso das eleições que participou, tanto em Peabiru como em Roncador.


Pois então, nas eleições de Roncador em 1961 o Eleutério enfrentou o opositor Estanislau Oronkokoski, safrista de porcos, pessoa pioneira e bom representante da colônia polonesa que, ainda hoje, impera na etnia roncadorense, cidade colonizada basicamente por poloneses, polacos como todo o povo fala.


Estanislau acreditava que seus patrícios polacos lhe dariam a vitória. Mas como enfrentava o Eleutério, o buraco era mais embaixo, ganhar do poderio do Eleutério não era fácil.


Para isso, seus partidários e os coordenadores da campanha criaram uma música para ser tocada nos comícios, que naquele tempo era os carro chefe das campanhas eleitorais, especialmente na zona rural que também era a maioria do eleitorado. Comício era festa e era a única maneira direta de falar para o povo, pois não havia rádio ou TV em Roncador.


A música dizia o seguinte:


Estanislau, Estanislau Oronkokoski
Para prefeito municipal de Roncador.


Estanislau, Estanislau é homem honrado
e ficô rico com engorda de capado.


Estanislau, Estanislau Oronkokoski,
Para prefeito municipal de Roncador.


Estanislau, Estanislau é homem sério
e não tem medo dos jagunços do Eleutério.



A música fez sucesso na campanha, mas quem levou/ganhou a eleição foi o Eleutério, que foi o primeiro prefeito eleito de Roncador.

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Capela "mutuária".

O prefeito Armandinho - Armando Alves de Souza de Mamborê, além de ter sido vereador - o mais votado, vice-prefeito e depois prefeito, foi uma figura política muito importante para Mamborê e para a região da COMCAM.


Cativava e conquistava todas as pessoas com quem tinha contato. Era simples, simpático e carismático, porém não era muito escolarizado e seu linguajar as vezes escorregava para o mais elementar desconhecimento da nossa língua portuguesa.


Mas fazia tudo com naturalidade e sinceridade. Morreu, não faz tanto tempo, num dos muitos acidentes de trânsito das estradas brasileiras, perto do município do Turvo, quando estava indo para Curitiba a serviço da sua Mamborê.


Pois é desse Armandinho que todo mundo gostava e que partiu muito cedo, que eu quero contar a história de uma importante obra que ele edificou para Mamborê - A capela mortuária.


Quando essa obra estava quase pronta para ser inaugurada, pelos idos dos anos 1990, fomos fazer uma transmissão esportiva do campeonato amador regional da então Liga de Futebol de Campo Mourão, pela Rádio Colméia, num domingo de tarde.


Gerson Maciel na narração, Wilson Bibiano repórter de campo e o "Doutor da Bola", como me chamavam no rádio esportivo, nos comentários. Tempos bons e de bom futebol; quanta saudade.


Mas claro, chegando a Mamborê e logo na abertura da jornada esportiva, uma das primeiras entrevistas das pessoas importantes daquela localidade foi com o prefeito Armandinho.


Bem ao natural, logo após falar da importância do jogo que se realizava no Estadio Municipal, perguntei-lhe sobre sua administração e suas obras na cidade.


Lá veio o convite para a inauguração da obra mais importante, naquele instante, para sua cidade de Mamborê.


Disse-nos ele nos microfones da Rádio Colméia: "olha Dr. Rubens, há muito tempo o povo de Mamborê não tinha onde velar seus mortos. Por isso, convido o senhor e todos os ouvintes para estarem conosco na inauguração da nossa "Capela Mutuária".


Ao longo da entrevista repetiu várias vezes que entregaria para Mamborê a sonhada "capela mutuária".


Esse era o Armandinho, amigo de muitos, grande político e que deixou uma linda família em Mamborê.
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Berço? mas sem pressa...

Me contaram essa história como sendo do Dídimo Mailard, um dos pioneiros da marcenaria em Campo Mourão, e primeiro ministro da eucaristia da nossa catedral, mas acho que é só lorota. Porém o causo é bom e vale a pena contar.

Dídimo era natural do estado do Rio de Janeiro e figura conhecidíssima na cidade, exímio marceneiro, casado com Dona Alexandrina, que ainda está saudável entre nós e sua bela família.

Se foi com o Dídimo, ou não, pouco importa.

O causo é hilário: o marceneiro era muito amigo de um outro cidadão que era padeiro.

Como o padeiro tinha umas árvores de madeira nobre no terreno onde iria construir a sua casa, pois iria casar em breve, isso lá pelos idos dos anos 1960, cortou a madeira e levou parte dela para que o marceneiro fizesse o berço para o filho do casal que já estava a caminho.

O filho nasceu, o marceneiro e o padeiro continuaram a grande amizade, ficaram compadres - o marceneiro batizou o menino, mais nada do berço, mesmo com as cobranças constantes do padeiro.

A madeira ficou guardada num canto da marcenaria, empoeirando-se, mas o berço nunca foi feito.

O filho do padeiro cresceu, ficou homem e quando ia se casar, o pai lembrou que tinha deixado a madeira para o berço com seu compadre marceneiro.

- Olha filho, tem uma madeira que eu deixei com o teu padrinho, o compadre marceneiro para fazer o teu berço, mas o compadre não fez. Vá falar com ele e peça que ele faça agora para o teu filho, meu neto.

Dito e feito, logo após o casamento quando a nora no padeiro já estava grávida, vai o filho do padeiro conversar com o seu padrinho, e pedir que ele lhe faça o berço cuja madeira estava guardada havia muitos anos.


Quando pediu ao compadre do seu pai, o marceneiro, seu padrinho, que lhe fizesse agora o berço para seu filho e neto do padeiro, eis a resposta do parcimonioso marceneiro - olha, afilhado, claro que te faço o berço, a madeira está ali no canto guardada e é do teu pai, mas só uma coisa: espero que você não esteja com tanta pressa como teu pai, pois tô cheio de serviço e te faço o berço assim que der, mas sem pressa, pois teu pai sempre ficava me apressando, me cobrando esse berço...

Dizem que o berço, se foi feito, foi só para o bisneto do padeiro.

As suspeitas estão aí dentro do salão do 10 de outubro...

A cidade inteira de Campo Mourão e a região ainda sentem saudade do Horlei Casali.

Horlei Casali, filho do pioneiro Aldo Casali e irmão do Tuta, foi uma figura emblemática de Campo Mourão.

Empresário de sucesso, nunca casou. Teve vários filhos com várias mães, sempre os assumiu e os criou, mesmo à distância, mas com carinho de pai; tanto que hoje, após sua precoce morte ao 55 anos de idade, os filhos herdaram e assumiram seus negócios que continuam prósperos.

Horlei era um bom-vivã.

Segundo sua mãe Dona Erdí, o que lhe matou foi o cigarro. Mas durante toda sua curta mas fecunda vida, o que HORLEI NUNCA DEIXOU DE FAZER FOI FESTA.

Festava por qualquer motivo e sempre até altas horas da madrugada. Mulheres, nunca lhe faltaram, polis além de solteirão conhecido, sempre teve muita grana a gostava de gastá-la bem, divertindo-se à vontade e com vontade.

Pois foi esse Horlei Casali, que certa ocasião desafiou a portaria do tradicional Clube 10 de Outubro de Campo Mourão, numa noite de baile de gala, quando ainda se faziam esses bailes até o final dos anos oitenta.

O baile era grandioso, tocado por banda famosíssima e com presença de grande artista da televisão como atração, o que tornava o evento glamuroso e sofisticado e que transcorria animado e tranquilo.

Eis que já no começo da madrugada, pelas duas horas mais ou menos, chega o Horlei acompanhado de três mulheres da Boate América.

A Boate América foi durante muitos anos o maior meretrício (zona dos ricos, como se chamava naquela época) da região da COMCAM, alí na estrada para Peabiru, cerca de 5 km da cidade.

Sempre tinha prostitutas de alto coturno, mulheres bonitas e caras, vindas de todos os cantos do Brasil.

Acompanhado de três dessas "mulheres da vida" eis que o Horlei ao chegar na portaria do sofisticado, familiar e tradicional Clube 10 de Outubro, como sócio que era, pediu permissão para entrar.

O porteiro do baile, zeloso e prudente, ao ver as mulheres que acompanhavam Horlei Casali, chamou para o lado o festeiro sócio e com picardia mas educação ponderou: Horlei, não posso deixar você entrar acompanhado dessas mulheres, pois elas são suspeitas...

Ao que, de pronto, responde Horlei - suspeitas? suspeitas são as mulheres que estão aí dentro do salão do Clube, essas são legítimas, são putas da Boate América...

Para não criar caso, levou-as de volta para a Boate e terminou sua noite do jeito que sempre fazia, festando...


Em política, vale a versão não o fato.

No dia 21 de setembro de 1959, quando iam participar de uma reunião com o então governador Moisés Lupion, em Maringá, faleceram num acidente automobilístico ( o carro em que viajavam bateu, por causa da poeira que existia nas estradas de chão daquela época, num caminhão "mercedes bicudo", na saída de Engenheiro Beltrão, naquela reta que existe depois da curva e do posto de combustíveis na estrada para Maringá, bem em frente à Fazenda Walderez que era de propriedade do Senador Acioly Filho, onde plantava café, hoje tem cana ) os senhores/políticos:

Roberto Brzezinski - prefeito de Campo Mourão.

Harrison José Borges - Pitico - candidato a prefeito de Campo Mourão.

Roberto - coletor de rendas estaduais de Engenheiro Beltrão, que era oriundo de Jacarezinho, e Santiago - candidato a prefeito de Engenheiro Beltrão.


O único que sobreviveu foi o prefeito de Engenheiro Beltrão, Jaquim Bueno, com muitos ferimentos.

Esse acidente, mexeu com a história tanto de Campo Mourão, quanto de Engenheiro Beltrão, pois as campanhas políticas que estavam quase no final, tomaram rumo emocional em face dos óbitos dos políticos envolvidos.


Vou contar só o caso da repercussão em Engenheiro Beltrão, com o testemunho ainda vivo e lúcido do ex-prefeito daquela cidade Joaquim Viana Pereira Filho, o conhecido Viana do Cartório de Protestos, 2º Ofício, da nossa cidade.


Contou-me Viana que assim que houve a notícia do acidente com as mortes, o reboliço político foi imenso, pois o fato se deu no dia 21 de setembro e as eleições eram dia 3 de outubro, em cima do laço, em cima da hora.


Ainda no velório do candidato Santiago, em sua serraria na cidade de Engenheiro Beltrão, as tratativas para substituí-lo corriam soltas. Definiu-se pelo nome do genro do morto - Jordão Felício.


Até aí tudo normal.


O Candidato opositor era o renomado e idôneo Antonio Bruneta de Ivailândia, favoritíssimo para ganhar a eleição não fosse a morte de Santiago.


Eis que durante o velório, um gaiato que o Viana não lembra quem foi, chega no meio da noite no velório e afirma - o Bruneta tá fazendo um baile em Ivailândia para comemorar a morte do Santiago e sua provável vitória.


Em palavras textuais do Viana - a notícia parecia um "enxame de abelhas, zunindo no meio do povo".


Claro que a notícia era falsa, mas pela comoção do momento ninguém foi conferir o boato, a fofoca tomou corpo, o povo revoltou-se e deu o substituto do morto, seu genro Jordão Felício na cabeça. Ganhou a eleição.


Até hoje muita gente ainda lamenta isso em Engenheiro Beltrão, pois o Antonio Bruneta teria sido muito melhor para a cidade do que o substituto do morto, seu genro, que, aliás, como lembra Viana, fez um mandato que não contribuiu para o desenvolvimento de Engenheiro Beltrão.

Por isso que em política, as vezes, vale a versão e não o fato. Cuidado...

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"ele é muito puxa saco do prefeito Rubens Bueno..."

Quando o Rubens Bueno era prefeito de Campo Mourão, certa feita ele e o Anísio Moraes, renomado radialista que deixou o rádio há algum tempo por problemas de saúde, estavam ido para uma viagem à Curitiba.

Naquela época estavam no ar dois programas muito populares na manhãs das duas rádios AM de Campo Mourão: o programa do Anísio Moraes na Rádio Colméia e programa do Valdete Rodrigues, na Rádio Humaitá.


Ambos noticiosos e de comentários políticos, no mesmo horário - entre 8 e 10 da manhã.


O prefeito Rubens que dirigia, parou o veículo para abastecer num posto à beira da estrada, perto de Luiziana.


Quando frentista veio abastecer o tanque de combustível, o prefeito Rubens, em tom de brincadeira, perguntou ao frentista se ele conhecia o radialista Valdete Rodrigues.

O frentista respondeu que não.

Então o prefeito Rubens, para continuar a brincadeira, acrescentou: "então deixa eu te apresentar o Valdete Rodrigues" - apontando para o seu acompanhante Anísio Moraes, concorrente de Valdete.

O Anísio Moraes, entrando na brincadeira, ficou em silêncio. Ato contínuo, o prefeito Rubens arrematou: "o senhor gosta mais do programa do Valdete Rodrigues ou o do Anísio Maores?"

Ao que, de pronto, veio a resposta definitiva e franca do simpático frentista do posto: "pois olha senhor, eu gosto mais o programa do Valdete Rodrigues, porque o Anísio Moraes eu não gosto muito de ouvir, pois ele é muito puxa saco do prefeito Rubens Bueno, por isso eu não gosto de escutar o programa dele..."

O tanque foi completado com o combustível, o frentista limpou o pára-brisa, e o prefeito Rubens Bueno e o radialista Anísio Moraes seguiram viagem deixando para dar uma baita gargalhada depois que estavam longe do posto.... Ah! tinha mais gente que ia junto na viagem e testemunhou tudo.

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É uma Mafla...

Nas eleições de 1982, eu era Promotor de Justiça de Engenheiro Beltrão. A comarca de Engenheiro Beltrão compreende os municípios de Quinta do Sol e Fênix.

As apurações naquela ópoca se davam na sede da comarca e sempre domoravam quase dois dias, pois todos os votos eram manuais e por cédula onde os eleitores assinalvam um "xis" no quadrinho dos candidatos a prefeito e escreviam o nome ou o número dos candidatos a vereador no lado direito da cédula eleitoral.

Primeiro se apuravam os votos para prefeito, depois para vereador. Por isso sempre demorava um pouco.

Também naqueles tempos só existiam dois partidos: PDS e PMDB.

O PDS sucedera a antiga ARENA e o PMDB o antigo MDB, vez que a legislação imposta pelo regime militar passou a exigir a palavra "partido" nas agremiações políticas.

Entrementes, só se admitia a disputa eleitoral dentro desses dois partidos, por meio das chamadas ,"sublegendas" isto é: concorriam até três candidatos por sublegenda e somavam-se os votos delas para eleger o candidato mais votado dentro da própria sublegenda, com vinculação do voto, ou seja: quem votava para governador de um partido tinha que votar nos demais candidatos desse mesmo partido, senão anulava o todo o voto. Era uma democracia limitada.

Tudo isso foi criado pelo "bruxo" do regime militar, o general Golberi do Couto e Silva, que foi durante muito tempo e vários governos militares o chefe da Casa Civil e Secretário Geral da Presidência da República.

Esse sistema garantia, por assim dizer, a maioria para o governo. Esse era o espírito da sublegenda vinculada.

Nas eleições de 1982 o ,José Novais Porto conhecido como "Zezão", que era um homenzarrão de mais de um metro e noventa de altura, muito popular em Fênix onde já fora prefeito, concorria sózinho contra três candidatos do PDS para a prefeitura de Fênix.

Terminada a campanha eleitoral e realizada a eleição no dia 15 de novembro de 1982, corria a apuração dos votos no Fórum de Engenheiro Beltrão.

Contados os votos do município de Fênix, o Zezão sózinho, pelo PMDB, quase ganhou a eleição: perdeu por pouco mais de 30 votos para os outros três candidatos somados das sublegendas do PDS.

Ao final da contagem ele veio falar comigo se era possível pedir uma recontagem, pois a diferença era muito pequena. Como Promotor, orientei-lhe que deveria recorrer naquele momento, antes de fecharem as urnas, pois o prazo era fatal, se não houvesse recurso no ato de encerramento da contagem, não caberia mais recurso posterior, salvo por uma nulidade gravíssima.

Lembro bem, o Zezão coçou a cabeça, olhou para o alto e me respondeu: "não adianta recorrer não, doutor, essa turma do PDS de Fênix é uma "mafla" se eu recorrer eles vão me enterrar politicamente e dizer que eu não "sube" perder. Deixa quieto, na próxima eu ganho"

Não me lembro se o José Novais Porto, o Zezão, disputou outra eleição em Fênix, mais com certeza achava que seus adversários políticos eram mafiosos...

Fico incrível !!

Quando meu cunhado Eraldo tinha um chácara no São Benedito, interior do nosso município entre a boiadeira e a estrada para Goioerê, o caseiro da chácara chamava-se Manuel, conhecido como Mané, homem simples, rude, das labutas do campo, muito jeitoso e muito bom de papo.

Gostava de falar difícil, do seu jeito, especialmente quando conversava com alguma pessoa mais culta que ele, no seu julgar, particularmente sobre assuntos do momento e das coisas do corriqueiro.

Certa feita houve um inexplicável ataque de cobras naquela região e nos fundos da chácara que cuidava.

Tanto que meu cunhado chegou a levar um "benzedor" para espantar as cobras.

Na crendíce popular, só se espanta cobras de um lugar quando elas se concentram neste espaço territorial, com uma simpatia que só os "benzedores" sabem o rito.

É coisa do folclore, das crenças do povo do interior, talvez uma herança indígena semelhante às pajelanças, só que na fé cristã com suas rezas e orações.

Funciona. Se são as rezas ou a presença física de outra pessoa no local, não sei, mas as cobras se afastam, somem mesmo.

Então o fato curioso.

Numa ocasião quando estive de visita na chácara, eis que o Mané veio me relatar a presença das cobras nos fundos da propriedade perto das aguadas; também o fato do "benzedor" ter expulsado as cobras do local.

"Não sei Dr. Rubens como apareceram tantas cobras por aqui. E olha: a maioria venenosa. Eu fico incrível como o "benzedor" conseguiu espantar a cobraiada."

Tudo bem, mas ficar "incrível ?"

Essa foi mais uma das muitas do Mané, ficar Mas "incrível..."

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Não orna, Dr. Rubens..

Mais uma boa história com o sempre lembrado vereador Julio Vieira. Essa aconteceu diretamente comigo.

Quando cheguei em Campo Mourão, removido por merecimento em 1983, como Promotor de Justiça da comarca, um dos primeiros sonhos que consegui realizar depois de muita luta e com um financiamento de 15 anos junto à CEF, foi comprar minha primeira casa própria, que possuo até hoje na Rua Antonio Sartori, nº 75, no Jardim Lourdes, onde morei por mais de 26 anos.

Na ocasião da compra, maio de 1983, chovia muito e foi na época daquelas devastadoras enchentes em Santa Catarina, que desabrigaram e desalojaram milhares de pessoas, com algumas mortes- infelizmente - naquele estado.

Lembro bem que fechei o negócio da casa com o então gerente da CEF, Chevalier, que tinha construido a casa mas obtivera sua sonhada promoção para Paranaguá, sua terra natal. Por isso vendeu-me a casa recém construída.

Tudo o que eu tinha de bens pus no negócio, inclusive meu carro, uma caravan branca 1982. Fique a pé por vários meses, até conseguir guardar alguns trocados para dar de entrada num carro usado, uma variante II, que me lembro até a placa: ET-4047.

Durante os meses que fiquei sem carro, ia ao trabalho no Fórum Estadual de bicicleta, uma barra circular monark vermelha e branca ano 1980, que possuo até hoje.

Num começo de tarde quando chegava ao Fórum para iniciar o expediante vespertino de trabalho, ao encostar e cadear a minha magrela para subir ao gabinete, eis que o vereador Julio Vieira estava me aguardando para uma das suas constantes consultas para seus projetos de vereador, como costumeiramente fazia.

Ao me ver descer da bicicleta e iniciar a subida das escadarias do Fórum, me acompanhou e foi logo indagando: "Dr. Rubens, o senhor tá vindo trabalhar de bicicleta? Por quê?"

Expliquei-lhe que tinha comprado minha casa e todos meus haveres e bens tinham sido usados no negócio.

Mas ele não se fez de rogado: "Não faça isso doutor, venha a pé, pois de bicicleta não orna para o senhor"

Subimos, atendi o Julio e continuei vindo de bicicleta até o dia que pude comprar o meu novo carro usado.

Naquela época comprar carro era muito difícil, não tão fácil como hoje. Os mais vividos vão lembrar-se disso.

Ornando ou não, esse foi um pedaço de história da minha vida.

Talvez atualmente, a solução para o caótico trânsito das cidades seja estimular as pessoas a andar de bicicleta, por que não?

Hoje orna e é politicamente recomendável.

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Só com o "Chalme" dele?

Esse causo é ótimo e está bem contextualizado face o Deputado Rubens Bueno estar em bastante evidência neste momento das convenções partidárias e lançamento de candidatos para as próximas eleições.

Nos anos 1980, quando o Rubens Bueno foi candidato a deputado estadual pela primeira vez, no velho MDB, saiu cavando apoios pela região, mais os pilas eram parcos e poucos, estruturando sua campanha mais nas amizades do que nos grandes investimentos que não existiam, ainda mais um candidato na oposição ao regime da época - militar.

Numa das muitas visitas para líderes políticos do PMDB na região da COMCAM, o candidato Rubens Bueno foi conversar com um grupo de vereadores, num determinado município aqui perto - não vem ao caso citá-lo nominalmente .

Terminada a reunião, fixados os pontos de apoio e as possíveis estratégias para a realização da campanha para o candidato a deputado Rubens Bueno, abraços e despedidas de praxe.

Logo que o carro do candidato se afastou do local da mencionada reunião no pequeno município, eis que chega um outro vereador que não pode estar durante a reunião, chegou atrasado, e após ser atualizado do que fora combinado na mesma, fulminou a todos com a indispensável pergunta sobre os valores que seriam dispendidos para a campanha:

Indagou ele: "e aí, o candidato Rubens Bueno falou como faremos com os recursos financeiros da campanha, ou ele está pensando que nós vamos apoiá-lo só pelo "chalme" dele..."

O candidato Rubens foi bem votado no município deste causo e elegeu-se deputado estadual, sua primeira eleição vitoriosa no PMDB da época.

Acho que apareceu algum dinheiro para a campanha, além é claro do charme natural do candidato...

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Remédio para soluço.

Nos anos 1960 na Rua Araruna esquina com a Av. João Bento existia um hospital de madeira, Hospital São Luiz, de propriedade do médico Dr. Odilon Melo de Freitas, lutador de artes marciais e colecionador de armas famoso na cidade, tido como temperamental e muito brabo. Gostava e tinha muitos cachorros grandes.

Nós morávamos bem na frente, do outro lado da Rua Araruna, e todos os vizinhos temiam o Dr. Odilon pela sua fama, porém nunca tivemos qualquer problema com o temido médico, vez que um pouco da sua fama era só fofoca do povo, pois só o fato, naquela época, de saber que alguém lutava artes marciais, assustava; não era moda como hoje que existe até programa televisivo após o fantástico.

Dr. Odilon chefiou o posto de saúde e foi embora de Campo Mourão no final dos anos 70, vendendo a propriedade para o Bernardino Vian que ali edificou casa nova de alvenaria. Hoje quem é proprietária e mora no local é a família Macowski.

Dr. Odilon, além de colecionador de armas, gostava muito de praticar tiro ao alvo e, por isso, sempre andava armado e atirava muito bem. Em face disso também, o temor do povo.

De uma feita, um senhora não conseguia resolver seu problema de soluço. Soluçava sem parar. Ela, acompanhada do seu marido, foi consultar com o Dr. Odilon, no Hospital São Luiz.

Iniciada a consulta o marido diz ao médico Odilon: "Doutor, faz quase três dias que minha mulher não para de soluçar"

O médico, olha para a mulher e com voz firme e ameaçadora, diz: "Nestes casos não há solução, é só matando".
De pronto, se levanta e saca seu revólver e o aponta para a mulher.

Ela e o marido, saltam para o fundo do consultório, brancos e absolutamente assustados.

Só que o soluço sumiu na hora. Aí a explicação do médido: "soluço? só se cura com um bom susto. Podem ir que a sua mulher está curada".

O casal saiu do hospital asustado, mas o soluço da mulher realmente sumiu.

Naquele tempo se curava até no cano do revólver...

Ah!... esse causo é verdade verdadeira, só não dou o nome do casal, porque até hoje eles se assustam quando lembram do Dr. Odilon Melo de Freitas.

O médico Dr. Odilon faleceu faz tempo e a única filha do casal, Raquel, que foi casada com o Alceu Ghering, hoje reside em Curitiba e está casada com o gaúcho Erton Bittencourt, que foi Patrão/Presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho do Paraná.

Mais um detalhe: a primeira piscina domiciliar da cidade era na casa do Dr. Odilon.

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A escarradeira e o prefeito

Esse causo é contado desde os anos 60 como verdadeiro, mas eu acho que é só folclore político.

O prefeito Antonio Teodoro de Oliveira, seu Antoninho, como era conhecido, foi o ganhador da campanha para prefeito mais rápida na história política de Campo Mourão.

Explico: o candidato a prefeito da situação nas eleições de 1959, era Harrison José Borges, cartorário, conhecido como "Pitico".

Era o favorito contra o opositor Paulo Poli. Porém, no dia 21 de setembro de 1959, o prefeito Roberto Brzezinski e o candidato "Pitico" estavam indo para Maringá, para reunião com o Gov. Moisés Lupion. Na viagem, sofreram grave acidente perto de Engenheiro Beltrão e faleceram os dois.

Foi uma comoção sem tamanho. A eleição era dia 3 de outubro. O enterro foi dia 22 de setembro. A cidade ficou sem prefeito e sem candidato a prefeito.

Assumiu o Presidente da Câmara dr. Paulo Fortes, pois naquela época não existia o cargo de Vice-Prefeito. Só se votava para prefeito.

Aí, no dia 23 de setembro, às pressas, foi lançado o nome do seu Antoninho - Antonio Teodoro de Oliveira, em substituição ao de Harrison J. Borges que morrera. Dessa forma em apenas 9 dias, pois no dia 3 de outubro foi a eleição, o cadidato Antonio Teodoro de Oliveira venceu com folga seu opositor.

Assumiu e fez, considerados os limites e as possibiulidades da época, no contexto do tempo, um excelente mandato.

Iniciou a construção da atual prefeitura, da primeira quadra de asfalto, melhorou a frota municipal, enfim o possível para aqueles tempos difíceis e pioneiros.

Seu Antoninho Teodoro era homem simples, caboclão, mas ao lado de sua zelosa esposa Dona Zuleica, parteira e respeitada benzedeira, atendia com humanidade e amor todas as reivindicaçãoes do povo, com especial carinho. Tanto que tinham mais de mil compadres, dada a grande amizade que todos nutriam pelo exemplar casal.

Seu Antoninho gostava de mascar fumo, que no imaginário popular e pelos conhecimentos rudimentares da farmacologia daquele tempo, evitava doenças, pois o fumo era tido como preventivo de infecções. Isso era mito e muitos pioneiros mascavam fumo e também usavam rapé no nariz para espirrar e não ter dor de cabeça, diziam.

Pois foi numa das primeiras viagens do novo prefeito de Campo Mourão ao Governador, em Curitiba, que o causo se deu.

Enquanto aguardava a audiência com o Governador, na sala de espera no Palácio Iguaçú, seu Antoninho mascava fumo como fazia regularmente. Uma mascada e logo uma cuspida.

A atenta secretária do gabinete do governador vendo que o prefeito cuspia no chão, mandou providenciar uma escarradeira.

Escarradeira do lado direito, o prefeito cuspia para o lado esquerdo. Mudavam de lado a escarradeira, o prefeito mudava a cuspida.

De repente, seu Antoninho adverte a secretária: "Olha Dona, se ficarem colocando essa panelinha onde eu tô cuspindo, daqui a pouco eu cuspo dentro".

Por isso que eu disse que não sei se o causo é verdadeiro, mas os políticos da época, principalmente os de oposição, diziam que aconteceu mesmo esse fato...

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Atmosfera carregada

Esse causo parece inverídico, mas não é.

É verdade verdadeira mesmo. Só não vou dar os nomes dos envolvidos, pois são pessoas conhecidas, vivas e citá-las não seria prudente, pois um deles é muito esquentado e brabo.

Pois exatamente este, que é o mais difícil de lidar, certa feita chamou um conhecido agrônomo da city para fazer uma visita técnica na sua propriedade que fica perto da sede urbana do nosso município.

Lá chegando, o agonômo viu o que precisava ser visto, orientou o que achou que devia orientar, e já de saída, perto da sede da fazenda, pararam embaixo de uma árvore, uma jaqueira, para concluir a prosa.

Porém o tempo estava muito quente, para chuva, nublado e com todos os sintomas de água na cabeça e logo.

No meio da conversa, o gentil agrônomo, para não ficar só nos detalhes da consulta e das indagações do fazendeiro, com pressa de ir embora e não se molhar, olha para o céu, por meio dos galhos da jaqueira e diz: "nossa seu fulano, como a atomosfera está carrregada, temos que nos apressar."

O fazenderão, mais que de pronto, corrige: "carregada nada, o senhor precisava ver o ano passado como tinha atmosfera grande nesse pé. Esse ano a carga tá miúda e rala."

O educado agrônomo entendendo a explicação do seu consulente, conteve o riso, adiantou a despedida e não fez mais nenhum comentário sobre o tempo com a "atmosfera carregada"...

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Coisas que eu "aparpo e não aparpo"

Já contei um causo, dentre os primeiros publicados nesta coluna, do seu Olivino do Lar Paraná, o mineiro mais mineiro que eu conheci.

Seu Olivino, embora homem muito simples e sem letras, era atualizado e gostava de falar sobre tudo, participava com simpatia de várias conversas com pessoas de todos os níveis culturais, pois naqueles tempos pioneiro do Lar Paraná, final dos anos 1950 e começo dos anos 60, a migração para o grande Larpa era constante.

Seu Olivino, como vivia de alugueres e da produção do seu sítio no 42, hoje Nova Brasília, na estrada boiadeira, tinha sempre tempo para estar em todas as boas rodas de prosa no centro do Lar Paraná, onde também participavam o seu Paulino Slomp, proprietário do loteamento, seu Zé Amiro, seu Napoleão Ribeiro, Dr. Iris Mazzucheti, seu Plínio Bridi - pai da primeira miss Campo Mourão, Nadia Bridi - seu André Gato, seu Deolindo Gussão, seu Mori, seu Résio, João Balão, seu Pedro Barbeiro, seu Arlindo da Tapeçaria, Seu Antoninho da HM, seu Belizário e seu Maioni, sócios da serraria, seu Gastone/açougueiro -meu pai - e tantos outros que agora a memória não me ajuda. Eu guri, só ficava de "butuca", escutando tudo e prestando muita atenção.

Era um tempo de muitas e muitas prosas. Como as pessoas conversavam, a dois ou em "rodinhas de muitos", como era comum. Talvez por que as pessoas não corriam tanto como hoje, tudo era mais devagar, mais calmo, menos correrria e atropelo.

Pois foi numa dessas rodinhas de amigos que chegou-se a conversa sobre religião, vida após a morte, reencarnação, pessoas que incorporam espíritos na crença espírita e outras conversas sobrenaturais.

Em determinado momento, lá vem, mais uma vez, a pérola filosófica do seu Olivino: "olha amigos, sô católico, creio em Deus e em Jesus Cristo. Se eu não consigo entender de tudo que eu "aparpo" imagina aquilo que eu "não consigo aparpá". Essa história de espíritos é muito "compricada"..."

Mais uma lição do seu Olivino.
Até hoje tem gente que só apalpando, literalmente, entende alguma coisa...

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Velório democrático

No final dos anos 1950, quando chegamos por aqui, o pioneiro Aldo Casali, primo-irmão do meu pai, já tinha se establecido de há muito com sua tradioconal "Casali" comércio e serviços de torno, ferraria e mecânica.

Meu pai, o seu Gastone, veio exatamente para trabalhar como ferreiro.

Eram tempos de desbravamento e a colonização do município de Campo Mourão se fazia com os caboclos/pioneiros que estavam por aqui desde o começo do século 20, mais os migrantes que chegavam de muitos lugares, especialmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul, como era nosso caso e do seu Aldo Casali.

O causo é o seguinte: Aldo Casali, que fundou a primeira pedreira da cidade também, além de bom amigo e companheiro, era um gozador homérico, gostava de brincar com tudo e com todos. Quem o conheceu vai se lembrar do que estou contando.

Ali pelos lados da pedreira, abaixo do Jardim Paulista, moravam muitos pioneiros.

Certa feita um conhecido do Aldo Casali e do meu pai faleceu naquelas bandas. Era tido como mulherengo.

Foram para o velório durante a noite, pois era costume velar sempre os defuntos pela noite inteira para receber todos os amigos e parentes.

Nestes velórios, aproveitava-se para atualizar as conversas, as amizades e contar muitos causos, sempre com um bom café e bolinhos na banha, os bolinhos de chuva.

Eis que chegando ao velório, meu pai e o Aldo Casali, encontram a mulher e a amante do falecido chorando, cada uma de um lado do caixão.

A cena era comovedora, por certo.

Mas Aldo, mais que depressa diz para o meu pai, com sua inimitável ironia de bom gozador: "veja Gastone que democracia. Isso sim é um velório democrático".

Contidos os risos, feitos os devidos cumprimentos às duas "viúvas" e demais familiares, seguiram noite adentro comendo os bolinhos, tomando café, e atualizando as conversas, depois das rezas que a cada hora eram repetidas, como era de costume.

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"Olha vó que castelão!"

Tem uma querida amiga minha e de muitos da cidade que tem um filho de 4 para 5 anos. Criança é criança, aumenta mas não inventa.

A mãe da nossa amiga e avó do menino, mora em outra cidade e vem raramente, por razões diversas, visitar sua filha e seu querido neto.

Sempre se falam por telefone, uma das muitas recomendações de mãe e avó para sua filha e nos cuidados do neto é a sua educação religiosa,, principalmente quando o neto passou dos 4 anos.

A avó fala com sua filha e lembra-lhe de levar seu neto para o catecismo, para a igreja e os ensinamentos cristãos, como boa e zelosa avó.

A filha e mãe do menino/neto, sempre confirma por telefone para a avó que o leva para a igreja matriz.

Quando a avó, pergunta para a filha se está falando e encominhando seu neto para a igreja, a filha responde que sim.

Mas como toda prefessora de ensino médio, trabalha os três períodos e vive sempre cansada da labuta diária.

Claro, educa o melhor que pode seu filho, mas levá-lo à igreja? Nunca.

Para a avó diz que sim, mas nada de igreja.

Pois noutro dia a avó veio visitar sua filha e seu neto.

Ao pegar o neto para dar uma volta pela cidade, tomar um sorvete e fazer os agrados típicos de avó (avó é mãe com açucar, como diz o ditado popular), eis que passando pela praça Getúlio Vargas o seu querido netinho ao ver a imponência da igreja matriz de São José brada espantado para sua avó: "...olha vó que castelão grande..."

A avó, mais de depressa, entendeu o que estava acontecendo: sua filha não estava levando seu neto para os caminhos do Senhor, pois a char a igreja matriz um castelão não precisava dizer mais nada.

Agora, depois da bronca, o netinho começou a frequentar aulas de catecismo... e não confunde mais a igreja matriz com um castelão...

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Falta um grau pra ser maçônico.

Certa ocasião, quando eu era Promotor de Justiça em Engenheiro Beltrão, entre 1980 /1983, atendi um caso corriqueiro, mas raro.

Naquela época não existia Juizado de Pequenas Causas. Esse trabalho que hoje é feito por uma baita estrutura dentro dos fóruns por funcionários e Juízes, nós, Promotores, fazíamos nos gabinetes, no dia-a-dia, sem assessores ou funcionários; na prosa, na base do bom senso e da boa vontade de cada Colega, redigindo acordos na máquina de escrever manual, na cópia de papel carbono, como já relatei no caso do "peido".

Este fato aconteceu num dia que atendi um cidadão do interior do município de Fênix.

Lavrador, homem simples e simplório que tinha uma pendenga com um vizinho, da mesma condição.

O que veio ao gabinete reclamar do seu vizinho deu sua versão e, puxando a brasa para seu churrasco, dizia que o vizinho é que era ruim e não queria qualquer tipo de acordo.

Fiz a carta de intimação e marquei a audiência com os dois contendores, como era a praxe.

Chegado o dia e a hora, peço que os dois adentrem ao gabinete. Coloco-os um de cada lado da minha escrivaninha para que a distância evitasse qualquer surpresa ou agressão, vez que ambos pareciam pouco lhanos e bem "esquentados"

Começo a ouví-los, um de cada vez. Realmente a coisa não evoluia pois ambos eram radicais e sistemáticos.

Mas qual não foi a minha surpresa: mais ou menos no meio da fala de um deles, o outro levantou-se, dedo em riste, com olhar fixo e emocionado para meu lado, disse: "...eu não falei pro senhor, Dr. Promotor, que não dá pra acertar nada com esse homem: ele é muito ruim, é um demônio de tão ruim. Ele é tão ruim que falta um grau pra ser maçônico."

No final, consegui uma trégua entre os dois vizinhos que posteriormente acertaram o caso numa ação judicial.

Até hoje fico pensando:
na cabeça daquele humilde cidadão rurícola, ser maçom era transformar-se no capeta, como muitos pensam, sem saber, o que significa a maçonaria...

A compra do revólver "chimiti"

No começo da colonização da cidade de Campo Mourão, mais ou menos onde está a praça Getúlio Vargas, existia uma cancha de carreira de cavalos, raia, como se chama a cancha reta onde os cavalos correm e ganha aquele que chega na frente.

Normalmente em 400 metros que era o tamanho da "raia dos purungos" que existia em Campo do Mourão, desde os tempos de distrito.

"Raia dos Purungos" segundo os antigos, porque os participantes das carreiras levavam água e aguardente dentro de purungos, cabaças nativas, mesma trepadeira que produz a tradicional cuia de chimarrão que geralmente é feita de um purungo. Outros também chamam de porongo, mas isso é mais para o sul, Santa Catarina e Rio Grande. Aqui é purungo mesmo.

Eis o causo acontecido e verdadeiro.

Num dia de carreirada muitos estavam pariticipando, assitindo e apostando nos cavalos que corriam.

Dentre os presentes duas figuras pioneiras do muncípio: Ermenegildo Dolci, sócio da firma dos Trombini e José Custódio-Gordo do Barreiro das frutas, cafeicultor e pecuarista.

Também exisitia o José Custódio-Magro, pai do Olivino, ex-vereador. Eram primos, um gordo e outro magro.

"Zé Custódio-Gordo" era um homenzarão de quase dois metros de altura e uns 150Kg. Sempre se locomovia dirigindo sua "Rural Willys", carro de quem colhia muito café e tinha boa renda.

Pois numa das corridas houve uma aposta do "Zé Custódio-Gordo" com outro participante que teria dito depois que não fizera a aposta.

Aposta era na palavra, tá dito, tá dito. Não tinha papel nem testemunha, era palavra contra palavra. Claro que o "Zé Custódio-Gordo" quando o apostador negou aposta, "arrepiou", deu um salto para trás e sacou um belo 38 Smith-Wesson, "Chimiti" como se dizia naquele tempo.

O Ermenegildo Dolci, amigo dos dois em peleia e sabedor de que o Zé Custódio-Gordo iria matar o outro companheiro (que não vem ao caso citar o nome), mais que depressa, num lance de presença de espírito rápido, saltou na frente e disse ao "Zé Custódio-Gordo":

"Seu José Custódio!!! que arma linda, tô atrás de uma dessas faz anos e não consigo achar. O senhor não me vende esse revólver? Tô Lôco atrás de um desses, me venda, faça preço que eu compro."

Com aquela inusitada proposta o "Zé Custódio-Gordo" ficou confuso, acalmou-se e o outro cidadão que iria levar um tiro se afastou ligeiro e o Ermenegildo acabou comprando o revólver.

Na verdade o Ermenegildo não precisava da arma, mas para evitar uma morte, que naquele tempo era comum nesses casos, comprou o "chimiti" , evitou um tiro e talvez a morte de um amigo.

As carreiras prosseguiram, mas o apostador que negou a aposta com o "Zé Custódio-Gordo" nunca mais apareceu na "raia dos purungos"...

"...peido para o Tribunal"

No ano de 1978 assumi a comarca de São Jerônimo da Serra como Promotor de Justiça Substituto, minha segunda comarca, começo de carreira. A primeira fora Marialva, embora o decreto governamental de nomeação tivesse sido para Apucarana.

Naquela época não existia e nem se falava em computador nos gabinetes, nem quaisquer tipos de assessoria para as Promotorias, era tudo feito pessoalmente pelo Promotor, na máquina manual de datilografia, na base da cópia com papel carbono, que sempre manchava a mão e, às vezes, se não tivessemos muito cuidado, perdiamos o serviço, pois ao tirar o papel da máquina de escrever sujávamos a petição com os resíduos do carbono. Todo o cuidado era pouco.

Um tempo diferente, mas igualmente bom e feliz como hoje.

Certo dia, tinha eu que elaborar e datilografar uma petição/parecer para o Tribunal de Justiça.

Coloquei o papel na máquina de escrever com as três cópias necessárias, cada uma delas com o respectivo carbono - (uma para o arquivo da Promotoria; uma para o estágio probatório e outra para o arquivo pessoal). Era assim, pois não existia disquete, pen drive ou CD.

Feito o rascunho à mão, no lápis, vamos à redação final da petição/parecer para envio ao Tribunal de Justiça do Estado do Paraná.

Tudo muito bem fundamentado e pesquisado, na minha ótica.

Teminando de datilografar, no final da última página, a frase fatal: "salvo melhor juízo, este é o meu pedido".

Datei e iria assinar para enviar, no prazo legal, para Curitiba, perante o Tribunal.

Ao reler o texto para apor finalmente minha assinatura, eis o drama: tinha esquecido de um simples "d".

Ao invés de "pedido" escrevi "peido". Cadê o maldito "d".

Como eu iria mandar uma petição/parecer ao Tribunal, na capital, para os doutos, sem o "d". Colocar à mão, ficaria pior.

Então, lá vou eu escrever tudo de novo, montar as três cópias com carbono e com o maior cuidado do mundo para não esquecer o bendito "d", para que fosse "pedido", não "peido"...

Daí não deu erro: saiu "pedido" e foi para o Tribunal.

"Porco senhorita"

Essa é mais uma linda história de pioneirismo de nossa região e passou-se na Campina do Amoral, nos idos dos anos 1960.

Para a Campina Amoral vieram muitas famílias do sul do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

Duas famílias são tradicionais e tem seus descendentes fixados naquelas plagas até hoje: os Ferri e os Kaiser.

Conta-se como verdade verdadeira e o neto Mário Ferri Alessi me confirmou, que o sr. Frans Kaiser, pai do seu Martin e do Chico Kaiser, avô da Dra. Marta da ACICAM, quando chegou na Campina do Amoral, vindo de uma das Colônias de imigrantes alemães perto de Guarapuava, pouco, ou quase nada, falava de português, só falava em alemão.

Para se comunicar melhor e entender um pouco mais da língua, usava sempre um dicionário alemão/português para tirar dúvidas e esclarecer situações.

Então vejam que situação difícil: certa feita, seu Frans Kaiser foi até na casa de seu vizinho Ildefonso/Nene Ferri, italiano, que também quase só falava italiano, para comprar uma "porca" para cruzar com seu "porco" e iniciar um criame de suinos.

Chega seu Kaiser na casa do seu Ferri. Cumprimentos breves, cada um com sua dificuldade de se fazer entender pelo outro, um alemão e o outro italiano, mas amigos e bons vizinhos.

Explicada a razão da visita - seu Kaiser queria comprar do vizinho uma porca -, porém ele/Kaiser não sabia falar "porca", para ele suino era tudo "porco".

Seu Nene Ferri entendeu que ele queria "comprar um porco".

Chegaram no chiqueiro e o seu Ferri foi mostrando todos os seus "porcos machos".

O seu Kaiser queria explicar, mas não conseguia: não queria "porco macho", queria "fêmea", mas como dizer isso em português para seu vizinho italiano, não saia de jeito nenhum.

Não teve dúvida. Foi no seu carro, pegou o dicionário e encontrou a saída: disse para seu vizinho Ferri - " eu querrer comprrar um "porco senhorita ", não, "senhor ".

Feita e explicação, os dois acabaram se entendendo e nogociaram "a porca" que seu Kaiser queria... porco senhorita!!

Júlio Vieira e seu relógio

Há poucas semanas atrás eu contei a história do apelido do vereador Júlio Vieira, o "XO", xis e uma bolinha, que ele instruía seus eleitores para obter seus votos na cédula eleitoral.

Conto agora outra bela história política do vereador Júlio Vieira, essa é sensacional, criativa e digna do Júlio.

Naqueles tempos idos quando o Júlio Vieira elegeu-se vereador por vários mandatos o custo da campanha não era muito diferente dos valores de hoje.

As campanhas eram mais modestas, porém custavam sempre bastante para os candidatos, especialmente aqueles como Júlio Vieira que eram pobres, sem apoio financeiro de grupos ou de pessoas endinheiradas.

Certa feita, como Júlio sempre fazia, visitou-me no meu gabinete no fórum para consulatar-me sobre a legalidade de um projeto que desejava apresentar na Câmara de Vereadores.

Terminada a conversa, indaguei o vereador Júlio Vieira sobre os custos de sua campanha e de como fazia para se eleger sempre muito bem, sem ter apoio financeiro substancial, afora os pequenos valores que recebia de amigos como o senhor Terruel, de quem Júlio era particular amigo e confidente.

Respondeu-me com essa fenomenal história da sua forma de fazer campanha.

Disse-me o Júlio " Dr. Rubens, como o senhor bem sabe eu sou um homem pobre financeiramente, mas faço o seguinte: vou para o Paraguai e compro um saco de relógios de CR$ 1,99, no máximo.

São relógios até bonitos, mas de pouca qualidade, por isso baratos. Coloco um relógio no pulso e saio para fazer campanha. Quando um dos meus eleitores me procura para ajudá-lo em alguma necessidade, explico: meu amigo, você sabe que eu sou pobre como você, não tenho dinheiro para te arrumar, mas - tiro o relógio do pulso - pega aqui meu relógio e faça dinheiro, troque, venda e acerte teus problemas.

O eleitor sai satisfeito, feliz e meu gesto é nobre pois quem é que dá seu relógio para alguém. Esse gesto, faz com que o eleitor não me esqueça, conte para os outros minha atitude me valoriza para sempre.

Depois eu vou no carro, coloco outro relógio no pulso e faço da mesma forma com outro eleitor que me pede alguma ajuda.

Gasto pouco, atendo os pedidos do meu povo e meu gesto não é esquecido por ninguém, pois os relógios funcionam, são bonitos e o preço pouco importa pois meus eleitores são pobres como eu."


Isso hoje poderia ser até denunciado como compra de votos, mas nos idos dos anos 1970/1980 não existiam controles maiores das verbas de campanha, não se falava em caixa dois ou verbas não contabilizadas em campanhas políticas..

Onde seu Bruno mora?

O seu Bruno Ghering é um dos poucos pioneiros que chegaram nos anos 40 e 50 que ainda está vivo, e forte, beirando os 90 anos.

Seu Bruno, como todos o chamam, foi madeireiro. Hoje é pecuarista e agricultor. Edificou o primeiro prédio com mais de três andares em Campo Mourão.

Construiu, no final dos anos 50 o edifício na esquina da Rua Brasil com a av. Cap. Índio Bandeira, onde funcionou por muitos anos a farmácia América. Quando ele foi inaugurado ali existia a Loja Renner, do seu Zanini, famosa na época.

O prédio foi cartão postal do centro por muitos anos. Seu Bruno, além de pessoa simpática e amiga de todos, tem uma característica típica: como bom descendente de alemães gosta de cerveja.

Onde quer que ele esteja e a tome, o faz segurando a garrafa com seu cotovelo, junto ao corpo. A cerveja é sua. Pode até servir um copo para outrém, porém a garrafa não sai do seu cotovelo até acabar.

Outro "amigo inseparável" do seu Bruno é o seu palheiro, cigarro de palha no sistema velho, feito com fumo de corda e palha de milho, na moda antiga e menos prejudicial à saúde, haja vista que seu Bruno está um cerne de saúde e disposição.

Nos anos 50 e 60 havia no centro da cidade um famoso bolão, o Bolão do Patrocínio, na Rua Mato Grosso, frequentado pelos pioneiros da época. Ali se jogava o bolão, esporte muito popular entre os imigrantes italianos e alemães, sempre regado com cerveja, inseparável no jogo de bolão até hoje.

Seu Bruno frequentava o Bolão do Patrocínio quase todos os dias e tinha um costume: estacionava sua camionete voltada para a esquina, pois sabia que mesmo que saisse mais alegre de cerveja, virava à direita e chegava na sua casa no final da av. Irmãos Pereira, onde reside até hoje na primeira casa/sobrado de alvenaria da cidade.

Certa noite, no bolão, um amigo pediu a camionete emprestada para uma emergência rápida. Seu Bruno emprestou-a de pronto. O Amigo saiu, resolveu seu problema e ao voltar, estacionou a camionete ao contrário, voltada para baixo, no sentido da av. José Custódio de Oliveira. Naquele tempo não havia um palmo de asfalto na cidade.

Lá pelas tantas, seu Bruno terminou seu jogo de bolão, "tomou a saideira" e saiu para ir para casa dormir, pois na manhã seguinte tinha suas obrigações na madeireira.

Como a camionete estava ao contrário, funcionou-a e virou à direita, como fazia todas as vezes. Andou a distância que sempre andava, mas nada de chegar em casa.

Ao avistar um guarda noturno, parou e perguntou: "Boa noite seu guarda, podia me informar onde mora o seu Bruno Ghering?"

O gentil guardião ao vislumbrar seu indagador, ficou perplexo: "mas o senhor não é o seu Bruno Ghering, estou lhe reconhecendo?".

"Eu sei que eu sou o seu Bruno Ghering, mas eu quero saber onde seu Bruno mora".

Claro que o guarda noturno lhe deu o rumo, pois ele estava lá embaixo perto do Tio Patinhas.

Seu Bruno retornou e rumou para sua casa, onde descansou tranquilamente para os afazeres do dia seguinte.

HOTEL 5 ESTRELAS

Essa história é de um casal muito conhecido e querido na cidade. Porém, por precaução e respeito não vou citar os nomes, mas ele é um dos mais antigos advogados da região, tendo sido, em tempos passados, até político.

Pois vejam: esse ilustre casal saiu de Campo Mourão pra segunda lua de mel no nordeste brasileiro - Fortaleza- , vez que ambos são casados em segundas núpcias.

Sairam tranquilos para uma viagem sem pressa e sem compromisso, o dia que chegassem, chegariam, independentemente de rigidez no roteiro de viagem e nos horários.

Partiram, parando aqui e ali, nos locais que achavam aprazíveis e onde havia bons hotéis e boa comida.

Levaram vários dias para chegar até a belíssima Fortaleza.

Chegaram já noite alta. A preocupação era hospedarem-se em um bom hotel, de preferência 5 estrelas.

Como não conheciam a cidade, começaram a circular pelas ruas e avenidas do centro, a fim de localizar um bom hotel 5 estrelas.

Olha aqui, olha ali, e nada de achar um hotel 5 estrelas.

Já um pouco exausto da viagem e da emoção de chegar em Fortaleza, eis que o marido, que dirigia o veículo, grita para a esposa: "olha alí, amor, até que enfim um hotel 5 estrelas. Veja a placa: tem 5 estrelas. Vamos chegar."

Ao vislumbrar onde o marido queria parar o carro para hospedarem-se, a mulher observou melhor e o advertiu: "alí não é hotel, querido, é uma agência do Banco Itaú".

Ao sentir o mico, o marido continuou dirigindo até achar a placa de um verdadeiro hotel 5 estrelas, onde pernoitaram felizes e ficaram por mais uma semana.

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Médico ou açougueiro?

Em 1960 meu pai, o pioneiro Gastone, apelido italiano, pois seu nome verdadeiro era Antonio Sartori, um dos primeiros açougueiros de Campo Mourão, montou o Açougue Mourão, na Rua Brasil, ao lado do famoso Bar Cerejeira, que funcionou até pouco tempo atrás e em frente à antiga Farmácia Paulista do seu Zé Cantão, onde hoje estão as lojas dos portugueses, fumeiro, seleiro, bicicletaria e vários barbeiros.

Era um tempo de começo da evolução política e administrativa da cidade.

Tempo da poeira, a luz elétrica era no motor a óleo, telefones quase não existiam e as estradas todas no chão batido, sem um palmo de asfalto pra lado nenhum.

Mas como a cidade tinha ainda poucos moradores, a maior concentrção de população era na zona rural, todos se conheciam, se comprimentavam no dia-a-dia e iam levando a vida devagar, sem a pressa de hoje.

Numa manhã, vez que o açougue abria muito cedo, depois de preparar as carnes para os fregueses que logo chegariam, estávamos na frente do açougue, onde papai fumava seu tradicional cigarro "Belmonte" sem filtro, e a cidade começava seu movimento diário de pessoas subindo e descendo na Rua Brasil, eis que o Dr. José Carlos Ferreira, médico pioneiro que faleceu recentemente com mais de 90 anos, subia pela rua com sua camionete "chevrolet Brasil Marta Rocha", amarela e branca, cabine dupla, veículo raro, bonito e que só pessoas abastadas como o médico Dr. José possuiam.

Como ia bem devagar para não levantar muita poeira, repeitosamente, ao ver meu pai de guarda-pó branco e ele também estava com seu jaléco de médico, branco, colocou a cabeça para fora da porta e disse: "Bom dia colega Gastone".

Meu pai mais que depressa, pois tinha uma verve inata e espontânea, estendeu a mão e gritou, "pare, pare, pare Dr. José".

Dr. José parou sua camionete e papai indagou: "Esclareça-me uma coisa: o senhor disse - bom dia colega. Sou eu que sou médico ou é o senhor que é açougueiro?"

Me recordo bem, menino que eu era, mas essas coisas ficam gravadas na retina e na memória, Dr. José só disse: "Filho da mãe, você me pegou Gastone, depois te respondo".

Acelerou a camionete e seguiu seu destino dando uma baita gargalhada...


Metade da Idade.

Há em Peabiru um antigo oficial de farmácia cujo apelido é por demais simpático e conhecido: Paraná.

Todos conhecem o Paraná e sabem que tem que tomar cuidado quando com ele conversam, pois ele sempre tem uma pegadinha, uma piada, enfim, seu bom humor é natural e criativo.

Essa história quem me contou foi o Darlan Simão, peabiruense da gema, hoje radicado em Campo Mourão.

Quando faleceu o Galeano Aranha, genro do prefeito Eleutério Galdino de Andrade, já homenageado com um causo recente deste escriba, todos os amigos sentiram muito.

Galeano era irmão de outra figura conhecida e falante, o Galhardo Aranha, que sempre canta os leilões do Lar dos Velhinhos e gosta muito de laçar no CTG.

Galeano morreu muito moço, antes dos 60 anos.

E, claro, que seu velório foi dos mais movimentados e lembrados pelos familiares e amigos.

Exatamente no meio do velório do Galeano que o Paraná aprontou mais uma das suas.

Um amigo do Galeano lamentava o fato de pouca idade do falecido. Foi aí que o Paraná aproveitou para marcar sua constante verve e criatividade nas brincadeiras e pegadinhas que cotidianamente faz.

Disse o amigo do morto e do Paraná: .."Meu Deus, como o Galeano faleceu novo, moço ainda".

Era a deixa que o Paraná queria: "...é realmente o Galeano morreu novo, pois quando nós éramos crianças - eu tinha 6 anos e ele 3 anos. Portanto, se hoje eu estou com 60 anos, o Galeano morreu com 30 anos, muito novo mesmo..."

Claro que o constrangimento e a dor do momento solene de um velório virou uma risada só...

Mas ninguém desrespeitou o morto, foram rir lá fora, longe do caixão.


Júlio Vieira - vereador XO, sempre documentado.


Quem não lembra do vereador Júlio Vieira. Foi um político que marcou sua atuação por afirmar que só falava "documentado". Para isso o bolso da sua camisa estava sempre recheado de papéis.

Se eram documentos idôneos ou não, pouco importava, mas ele sempre os exibia aos seus eleitores, gente simples, simplória, muitos, muitíssimos, a maioria, analfabetos. Essa atitude impressionava e lhe garantia a credibilidade que lhe rendeu vários mandatos entre os candidatos mais votados.

Júlio Vieira, certa ocasião chegou a transformar uma "variante velha" em ambulância, com sirene e tudo, só para atender seu clientelismo político e para demonstrar sua atuação em favor do povo pobre e simples, seus eleitores.

Como Júlio Vieira morava no grande Lar Paraná, no Conjunto COHAPAR, bairro de trabalhadores, isso gerava vantagens políticas em todas as eleições. Tentou até emancipar o Lar Paraná.

As suas eleições, nos anos 1980 e 1990, eram pelo sistema de cédulas, onde os eleitores escreviam o número, o nome ou o apelido dos candidatos a vereador. Os candidatos podiam adotar até três apelidos, além do seu nome civil.

Me recordo bem, pois numa dessas eleições eu era o Promotor de Justiça Eleitoral e, por isso, antes da sentença do Juíz, o Promotor que dá seu parecer pela legalidade dos pedidos de registro dos candidatos. Chegou-me o processo às mãos. Eram vários e vários candidatos, entre eles: Júlio Vieira.

Júlio registrou seu nome, mais os três apelidos. Entre os apelidos o do "XO". Tudo dentro da lei, dei o parecer favorável.

Júlio Vieira concorreu e se elegeu com os votos no "XO".
Durante a apuração dos votos, indaguei ao Júlio Vieira: "Júlio, porque XO, se nunca ouvi ninguém te chamar de Chô?"

Veio a resposta e a explicação da criatividade política de Júlio Vieira - "Dr. Rubens, é o seguinte: a maioria dos meus eleitores é analfabeta. Então eu os oriento - na hora de votar você faz na cédula um "xis e uma bolinha - X O -" que tá votando pra mim. Porque um xis e uma bolinha qualquer analfabeto sabe fazer."

Assim Júlio foi se reelegendo até a chegada da urna eletrônica.

Quando chegou a urna eletrônica os analfabetos não conseguiam mais fazer o "xis e a bolinha " XO.

Júlio nunca mais se elegeu depois da adoção da urna eletrônica.

Júlio Vieira faleceu faz alguns anos, mas sempre é lembrado, principalmente pelos moradores do grande Lar Paraná.COR DA BANDEIRA

Eleutério Galdino de Andrade,
que dá nome à principal praça de Peabiru, foi um político muito importante e muito polêmico nos anos pioneiros das décadas de 1950 e 1960, não só em Peabiru, onde foi o segundo prefeito de 1957 a 1960, mas também em Roncador, onde foi o primeiro prefeito de 1961 a 1964.

Depois, voltou a ser prefeito de Peabiru, entre 1965 a 1969. Por esses fatos, sem dúvida, foi uma grande liderança política.

Mas era um homem duro, simples, de poucas letras e muito folclore, exatamente por sua linguagem simplória, até gaguejava um pouco.

A cultura era do tamanho da necessidade desses momentos de pioneirismo e desbravamento, quando o povo pouco exigia de suas lideranças, senão o trabalho, a seriedade e a convivência amigável.

Eram tempos sem TV, sem telefone, sem energia, enfim, tempos rudes e onde o fio do bigode e a palavra valiam mais que documentos, papéis, planejamento e burocracia.

Certa feita, ainda no primeiro mandato de prefeito de Peabiru, Eleutério tinha que fazer uma viagem para a capital, Curitiba, para tratar de assuntos urgentes do interesse do município.

Naquela época uma viagem para a capital era fato rarríssimo, pois levava no mínimo dois dias, se não chovesse. Essas viagens serviam também para atendimento de outras necessidades municipais, nos diversos setores e serviços.

Pois foi aí que a Diretora da Escola de Peabiru se dirigiu ao paço municipal e foi solicitar um importante favor ao prefeito Eleutério:

"Sr. prefeito, será que o senhor poderia aproveitar essa viagem à capital e trazer uma bandeira do Brasil para nossa Escola, pois está próxima a semana da pátria e precisamos de uma bandeira do Brasil para hastear e abrir o desfile cívico no dia 7 de setembro"

Mais que de pronto o prefeito Eleutério aquiesceu: "se, sem poblema professora. A se, a senhora só me anote as medidas e as cores que eu co, compro a bandeira em Curitiba..."

Era assim.
Só que naqueles tempos não se falava em corrupção e os líderes políticos não trocavam de partido.

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"Sou lôco de ativo"

Essa quem me contou foi o Amélio Guadagnin, agricultor de Campina do Amoral.

A Campina do Amoral é localidade antiga, tradicional, hoje município de Luiziana.

Ali viveu-se o ciclo da madeira até meados dos anos 70, sendo o berço da COAMO, com a subida da "gaúchada" do RS e Santa Catarina para plantar soja e trigo.

Até hoje aguardam o asfaltamento da transbrasiliana que, como a boiadeira, faz mais de 50 anos que está sendo prometida.

Mas o causo é outro.

Nos anos 70 e 80 na Campina havia um cidadão simples, pouca alfabetizado e que trabalhava de volante/diarista para um e para outro proprietários rurais da Campina.

Conhecido por SENO. Seu nome verdadeiro ninguém sabia.

O SENO trabalhava um dia para um, dois dias para outro e convivia de chacotas de todos, pois era simplório demais.

Certa feita, conseguiu comprar uma bicicleta. Enfeitou-a o mais que pode - espelhinhos, capa de selim, pára-barro, fitinhas no guidão, porta-feramentas, enfim: chamava a atenção.

Mas SENO não sabia andar, ia e vinha de casa, quase 4 km, para as festas e reuniões na sede do povoado da Campina, empurrando sua "linda bicicleta"; mas mostrava para todos que tinha uma bicicleta.

Figura ímpar. Tinha sempre uma expressão particular para impressionar seus amigos: "Sou lôco de ativo".

Certa feita, foi trabalhar para o Amélio Guadagnin por dia. Naquela época, final da década de 80, uma diária era de quatro mil e oitocentos cruzeiros.

Efetuado o trabalho diário, quando foram acertar as contas, Amélio disse ao SENO - "olha SENO, você trabalhou direito, fez um bom trabalho, ao invés de te pagar 4.800 cruzeiros, vou te pagar 5.000".

O SENO, mais que depressa defendeu-se: "Seu Amélio, não queira me enganar. Me pague o que o senhor tratou, pois eu "sou lôco de ativo", se o senhor tratou comigo 4.800 me pague 4.800, não me venha com essa conversa de 5.000..."

Amélio entendeu porque SENO "era lôco de ativo", pagou os dias de trabalho a 4.800 e o SENO foi embora feliz e certo que tinha evitado prejuízo, pois era "lôco de ativo" ...

Porco de-a-meia

O Bepe Perdoncini, já falecido, foi um pioneiro de Campo Mourão, sempre alegre e com muitos causos, pessoais e dos outros, que sempre floreava com particular esmero de detalhes. Os que o conheceram vão se lembrar do seu tipo e de suas prosas agradáveis.

Certa feita, na sua fazenda e antiga serraria em Roncador, o Bepe tinha lá uma meia duzia de suinos/porcos bem magros, precisando de trato para serem, depois, abatidos para o açougue. Como não tinha tempo nem disposição para a lida diária, resolveu repartir o lucro com um seu "velho" empregado e compadre, ainda do tempo da serraria.

Chamou-o e combinou o negócio: "Compadre, tenho esses porcos: você não quer cuidar de-a-meia" ( de-a-meia era prática comum noutros tempos, uma parte entrava com o serviço - cuidar e alimentar animais, porcos, bois ou outros - a outra pessoa entrava com o capital, os animais. Depois de tratados e prontos para o abate, repartia-se o lucro. Era uma sociedade simples, fácil e comum entre pessoas da roça). O "sócio" aderiu sem pestanejar: "Pode deixá comigo compadre, fico com os porco de-a-meia".

Trocaram o tradicional aperto de mão para fechar a sociedade, outra característica comum dos negócios só verbais, na palavra e no fio de bigode, como se dizia antigamente. Despediram-se. Bepe pegou seu "jeep" e veio embora para Campo Mourão. Isso aconteceu no meio da semana, numa quinta feira.

No domingo de manhã, ainda com o sol escondido para começar o dia, o Bepe escuta alguém batendo palmas no portão da sua casa.

Com a inseparável cuia de chimarrão que era sua companheira de todas as manhãs, vai atender ao chamado.

Quem está batendo à sua porta? - o seu compadre, o "sócio" nos porcos.

"Bom dia, compadre, entra e vamos matear, vivente. Que te traz aqui em casa tão cedo", pergunta Bepe.

E lá vem a bomba: "Compadre Bepe, como nóis tinha aqueles porco de-a-meia, onte fui a Roncador e já vendi. Tá aqui o peso e a sua metade da venda."

Bepe, assustado, ainda ponderou: "mas era pra engordar, eu te entreguei na quinta e você já vendeu no sábado, não deu nem três dias."

Veio a outra pancada do "sócio": "compadre Bepe, ia dá muito trabalho, resolvi vendê logo para não dá incômodo..."

Depois disso, pra não dar peleia, o Bepe pegou sua metade dos porcos e nunca mais quis engordar porco de-a-meia...

TIRADAS FILOSÓFICAS

Em 1966, meu pai, o seu Gastone (Gastone era apelido italiano para o nome civil Antonio Sartori ), comprou um açougue na av. Pres. Kennedy, no Lar Paraná - Açougue São Vicente.

Tinha até uma imagem do Santo dentro do Açougue, dada a fé do Seu Olivino e dona Lazinha, antigos donos do açougue e proprietários do prédio onde pagávamos aluguel. Eu trabalhei muito ali cortando carne.

Seu Olivino era daqueles mineiros da gema, que contava um causo e até sapateava quando ria. Mineiro, mineiro mesmo.

Figura benquista e respeitada no Lar Paraná naqueles anos pioneiros. Gostava e sempre tinha um causo da divisa do Paraná com São Paulo, em Iataguajé, onde viera moço lidar com gado naquela região de "Prudente" como dizia, referindo-se a grande região de Presidente Prudente-SP.

Seu Olivino sempre tinha uma tirada "filosófica" para suas singelas explicações do cotidiano. Como está passando seu Olivino? "Tô meia-pedra e meio tijolo, meu amigo".

Mais recentemente, já no limiar dos seus oitenta e tantos anos, fui a um velório onde havia falecido um rapaz, no começo da vida.

Sentei-me perto do seu Olivino no guardamento lá em São Benedito. Café com bolinho na banha logo foi servido aos amigos que velavam o rapaz.

No meio da prosa, provoquei-o: "seu Olivino, o senhor sempre diz que já está na hora de ir embora para a vida eterna, mas veja, Deus sabe a nossa hora, tá levando um moço e o senhor, por certo, ainda ficará um bom tempo conosco."

Mas, lá veio a pérola mineira na resposta: " é Dr. Rubis, dos novo vai argum, mas dos véio não escapa nenhum ". Não há filosofia mais correta, não acham?...

Seu Olivino faleceu, faz uns 8 anos, com quase 90 anos.

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FICA ME DEVENDO 30

Nos anos 70, havia em Campo Mourão, um cidadão conhecido como "Paulo Preto", que vivia de pequenas "mordidas", não gostava muito de trabalhar, mas era benquisto e não prejudicava ninguém, passava o dia pelo centro da cidade conversando, filando um café e um cigarro deste e daquele amigo. Era figura conhecida. Certo dia estavam alguns amigos em conversa perto da "Boca maldita" quando veem o Paulo preto que vinha cerca de meia quadra rumo ao grupo. Um deles disse: lá vem o Paulo Preto para "morder". Levou a mão ao bolso e separou CR$ 20,00, pois sabia que vinha algum pedido do Paulo.

Não deu nega: Bom dia amigos, disse Paulo Preto ao chegar, cumprimentando efusivamente todos da roda. E após alguns minutos de prosa, o pedido e a mordida: Dr. Fulano, estou com a luz para cortar lá em casa, o senhor não tem CR$ 50,00 para me emprestar. O citado, que já tinha separado os CR$ 20,00 esperando o pleito, levou a mão ao bolso e tirando os 20 disse ao Paulo Preto: amigo Paulo, só tenho CR$ 20,00 no bolso, mais nada.

O Paulo Preto, mais que depressa, pegou os CR$ 20,00, e emplacou a seguinte resposta: não tem problema Dr. Fulano, pego os 20 e o senhor fica me devendo CR$ 30,00... Essa não é estória é história, pois dos personagens só o Paulo Preto partiu para o além.

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